Dias de paz na CV (título provisório)

Adaptado de “Assassinatos da Rua Morgue”, de E.A. Poe

A despeito das tradições psicológicas, as melhores façanhas mentais costumam ser objetos pouco suscetíveis a análises prévias. Nesse campo, só confirmamos uma hipótese depois dos efeitos se manifestarem. O número de fracassados com o QI maior que o do Einstein atesta que quantificar inteligência e engarrafar peido têm a mesma consistência prática. No mundo real, nunca ninguém crava nada. Mas sabemos que façanhas existem, claro, e elas simplesmente estão aí para nos desafiar. Quando esses fenômenos se manifestam no grau do incomum, a “análise científica” rende-se ao brega:  eis que entra em cena o Pedro Bial e joga todo seu repertório de obviedades sobre algum prodígio. Daí a coisa pode se confundir com um truque e perder seu apelo pra bunda da Sabrina Sato. Mas não vou aqui vitimizar o cara que calcula mais rápido que uma Facit ou o que decorou a marca da cueca que usou no último finde do verão de 98. Tenho consciência de que o portador de grandes habilidades mentais, mesmo ele, não está livre da vaidade. A propaganda e o encantamento público são fontes inesgotáveis de prazer. Do outro lado da linha há um marombado tirando foto do bíceps no espelho da academia e o Chico Buarque, que vive do carisma que conquistou a platéia lá nos anos 70. Mas fora (e acima) do show business, há o sujeito cujas melhores faculdades – constrangedoras demais para serem exibidas em público – são as de analisar as coisas ao seu redor com uma rapidez de raciocínio que beira o sobrenatural.

Esse tipo de gente encontra prazer até numa viagem de elevador. Qualquer coisa, por mais trivial, vira oportunidade de exercer  talentos. As poucas demonstrações que o decoro lhe permite exibir deixam o interlecutor de cabelo em pé, e por isso tanta gente o recrimina por ser “uma pessoa difícil”, “sincero demais”, “enxerido” ou “fofoqueiro”.

Pode-se dizer que o homem analítico obtém suas habilidades no estudo meticuloso do raciocínio lógico, o que é correto segundo a filosofia clássica; porém suas conclusões – apesar de serem a própria essência do método – obedecem a um estrito jogo da intuição.

– O que vocês estão fazendo, seus merdas? O maior pecado da cristandade é usar peças de xadrez para jogar damas.

– Não gostamos de xadrez; e o maior pecado que existe é não usar a vida para se divertir.

– Preferir damas a xadrez é sinal de pobreza intelectual, Duran.

– Você vai me perdoar, mas no xadrez não há nada de intelectual.

– Como é?

– Não se pensa de verdade para jogar xadrez, apenas calcula-se as chances. E isso pode virar um mero jogo de memória. Nas damas é preciso muito mais maturidade, uma vez que todas as peças têm poderes iguais.

– Isso só significa que tu não tens condições de elaborar estratégias diferentes para seis tipos de sujeitos diferentes.

– Graças a Deus nunca precisei disso. Mas, se precisar, juro que não vou pedir para que eles andem em “L” ou em linha reta, seria inútil, para não dizer idiota. – Dama! – gritou o João para mim, ao alcançar a última linha do meu território com um peão. Eu tentava me concentrar no jogo enquanto ele discutia com nosso “patrão”, o seu Sabá, que nos dava servicinhos extras do “escritório”. O seu Sabá era dos mais poderosos dos assessores políticos da cidade e tinha um “setor” de negócios escusos que despachava no tal escritório. A nossa condição de novato por ali não nos permitia aquele grau de rispidez nas conversas com ele, e talvez o mais experiente dos funcionários jamais tivesse respondido daquele jeito para o patrão. Essa ideia me fazia gelar (e perder a concentração) a cada réplica da conversa. Pra piorar, João seguia na sua linha inflexível: – Seu Sabá, as damas fazem um serviço muito melhor no que diz respeito ao reconhecimento dos outros. É preciso se lançar no espírito do oponente para aprender como seduzi-lo. A proficiência demanda capacidade de vencer uma guerra pessoal com os olhos; toda hesitação, toda impaciência, um sorrisinho irônico, um movimento irrefletido… tudo isso são variações de uma coisa só: um homem frente à possibilidade de se dar bem. Duas ou três mesas depois, você reconhece a reação do outro diante das fatalidades; na saúde, na doença, na miséria, no medo, etc etc. Fazendo simples analogias, as damas lhe permitem supor estratégias para encalacrar o adversário usando seus vícios e virtudes.

Na época em que trabalhamos pro Sabá, eu já conhecia o poder de análise do João – ou do “Duranz”, como ele ficou conhecido mais tarde. Hoje, nesse âmbito, as ciências psicológicas já nos trazem deduções precisas sobre essa característica de maluco… e ficou claro que esse tipo não pode ser confundido com o tipo puramente engenhoso. O tipo engenhoso é aquele cara que pode passar num vestibular dos Agulhas Negras em primeiro lugar, mas bancar o idiota em áreas fora das teorias matemáticas. Hoje é possível fazer uma analogia entre engenhosidade/análise e fantasia/imaginação de modo que a conclusão, meio óbvia, é a de que o homem analítico é necessariamente engenhoso, assim como o homem de imaginação é obrigatoriamente um fantasista inveterado. Prosseguindo: o homem de imaginação rica quase sempre é um analítico; enquanto o homem de engenhos é incapaz de especular suas fantasias para além delas mesmas, isto é, ele não tem acesso livre ao campo da imaginação.

Tomando todas essas considerações como premissas, ficará muito mais claro identificar o ponto-chave dos acontecimentos que se passaram no meu bairro naquela madrugada de 2007…

Como toda Ciudad Vieja que se preze, a Cidade Velha de Belém é um bairro perigoso, apaixonante e meio podre. As fachadas dos prédios – antiquíssimos, imemoriais – emprestam às ruas uma atmosfera meio lúgubre, de nobreza decaída. A natureza do lugar parece se confundir com a vida dos que o habitam. Todos os residentes que conheci por ali, invariavelmente, ou eram de linhagens nobres (e arruinadas), ou eram pobres diabos (estudantes, prostitutas, travestis, portugueses…) Enquanto eu me encontrava nesta segunda categoria de pessoas – era universitário -, meu colega João Luiz, o Duranz, atendia tanto à primeira quanto à segunda tipologia: era um universitário falido, além de ser descendente de portugueses, ter uma irmã puta, escapando ele mesmo do assédio das bichas da Riachuelo. Uma das coisas que pode me explicar a existência de um cara como o João é justamente isso: seu ego havia sido reduzido a uma tal grau de miséria que seu caráter sucumbiu à dor, e isso o fez desistir de enfrentar o mundo. Infelizmente, quando o sujeito desiste de encarar a vida como ela é, só existem dois caminhos possíveis: transformar toda a realidade em variações do seu bel-prazer; ou o suicídio. É claro: todas essas formas não passam de delírios do escapismo.

Como o João não se matou, fica clara qual foi a loucura que o dominou durante sua história. Mas a vida de um homem marcado pela derrota dificilmente deixa de ser miserável. O João tinha consciência disso e não se deixava abater pela falta ou fartura de condições materiais. O único luxo que ele desfrutou durante o tempo em que moramos juntos foi o acesso irrestrito aos livros; isso porque o Tomás do sebo não se importava em lhe fazer empréstimos sem esperar pelo pagamento.

Foi lá mesmo no sebo do Tomás (na saída da Óbidos com a Tamandaré) que eu conheci o João Duranz. Na verdade eu já o reconhecia da Universidade, mas a coincidência de estarmos naquele lugar fétido, procurando pelo mesmo volume (que não era acadêmico), fez nossos contatos se estreitarem a ponto de virarmos verdadeiros amigos.

– Tô procurando o Cão da Meia Noite, do Marcos Rey. – disse ele ao Tomás.

– Acho que o dono não vai deixar você passear com ele. – então o Tomás apontou para mim, que folheava o Cão, apoiando o cotovelo numa escada articulada.

O João me convenceu a fazer um empréstimo de dois dias sobre o livro, sendo que eu ficaria devendo somente a metade do preço ao Tomás e ele a outra – que nunca seria paga, naturalmente. Fechei o acordo. Os dois dias passaram e nós nos encontramos novamente. Combinamos de fazer o mesmo outras vezes, com outros volumes, de modo que o Tomás se fodia enquanto minha amizade com o João aumentava formidavelmente. Logo estávamos nos encontrando quase todos os dias. Eu gostava de ouvir seus pequenos escândalos, que ele contava com todo o ardor dos egoístas quando falam de si mesmos. Me diziam que eu não deveria confiar no meu novo amigo porque, além de cleptomaníaco, ele era um péssimo escritor – e todo prosador possui vícios insanáveis. Pensei em dissuadi-lo para que ele investisse em poesia, mas esqueci essa ideia pois eu não me sentia em condições de aconselhar um cara cuja vastidão de leituras e inventividade me pareciam sublimes. O João me ensinava, essa era a verdade. E eu senti que a amizade com um homem assim poderia me trazer vantagens inestimáveis. Então um dia eu lhe confiei esse sentimento mesquinho. E a resposta veio, na maior tranquilidade, em forma de convite:

– Então venha morar comigo, Ronaldo.

– Morar contigo?

– Tens fome, teus olhos não mentem. Tens que experimentar uma verdadeira vida de escritor, cara, e às vezes é preciso se refugiar. Não dá pra fazer literatura com esse barulho. A felicidade e a miséria nos espreitam a todo intante, em todos os lugares. – enquanto João falava uma jovem morena desfilava na calçada com um aparelho de mp3 em forma de rabeta, o objeto emitia um ruído de broca que talvez fosse um technobrega.

– Não sei como, mas eu consigo te compreender.

– É preciso não dar mole pras facilidades da vida nem pras seduções da morte. E pra isso, o meu refúgio é perfeito. Quem souber do modo como viveremos vai pensar que somos dois loucos, embora dois loucos mansos. Mas que se foda. Nenhum intrometido como esse Tomás aí vai saber de nada. Aperte a minha mão, Ronaldo, e não se preocupe mais: vamos manter nossa localização em sigilo. Existiremos só para nós dois, isto é, para a literatura. A bunda-molice a gente deixa pra fora. – eu estive maravilhado com a sinceridade daquelas palavras, eu queria mergulhar nelas e apoiei imediatamente a ideia de que o mundo se desdobrasse segundo suas ordens – Ah, tu ficas com a luz e o supermercado, deixa que eu me viro com o IPTU.

Um bom filho da puta era o João.

 

(continua…)

Sobre cretinice…

Sobre cretinices, carolices e demais paumolecências que assolam a humanidade: “É preciso saber jogar por todo campo: do cabaré ao convento — ou melhor, do convento ao cabaré”

Facundo Cabral

Etimologia do caralho (workshop)

CARALHO – é o nome da cestinha que fica no alto do maior mastro de uma caravela, lembrando um objeto fálico. Logo, os marujos portugueses mais piadistas começaram a dizer “o meu é tão grande quanto um caralho”, e temos um palavrão.

PIROCA – em português arcaico significa “careca”. Daí quando o cabeleireiro comete um erro grosseiro, fala-se até hoje em “pirocado”. O paralelo do careca com o pênis não tardou.

– este singelo texto circula nas internerds desde o tempo do orkut, quando o Politicamente Cuzão não enchia tanto o saco e o samba abaixo apavorava as meninas de família sem o menor pudor… Alô, meu povo caralhense!!!

Hitler também preferia os cachorrinhos

Você aí, preocupadíssimo com os gorilas da Sumatra e com as borboletas do Afeganistão, saiba como e quando começaram a usar a sua compaixão como retórica política:

Anúncio da iniciativa alemã de proteção aos animais, proibindo seu uso como cobaias de laboratório.

Quem criou essas leis de defesa dos animais?

Isso mesmo, Hitler.

hitler_ecologista

(fonte: Sérgio Martorelli)

Não preciso nem lembrar o que aconteceu com os humanos no meio dessa história. Por outro lado, não vou alimentar a idéia de que acalentar um gatinho implica em ser genocida. Eu me comovo com Nietzsche e Raskólnikov beijando éguas, eu sou da tese de que um gato leva a outro, etc etc. Mas preme lembrar que Hitler era um fofo, do tipo que assinaria embaixo o “quanto mais conheço os homens, mais gosto do meu cachorro”; preme lembrar que as preferências pessoais dele – por mais tendenciosas que fossem – viraram implacáveis institutos criminais.

Isso tudo são memórias… porém vou desfocá-las um pouco para recorrer ao que está acontecendo agora, com a gente, no nosso idílico e tropicabundo Brasil:

Artigo 132 do projeto para o novo Código Penal.

Omissão de socorro
Art. 132. Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo, ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública:
Pena – prisão, de um a seis meses, ou multa.
Parágrafo único. A pena é aumentada de metade, se da omissão resulta lesão corporal grave, em qualquer grau, e triplicada, se resulta a morte.

Leiam, então, o que vai no 393:

Art. 393. Abandonar, em qualquer espaço público ou privado, animal doméstico, domesticado, silvestre ou em rota migratória, do qual se detém a propriedade, posse ou guarda, ou que está sob cuidado, vigilância ou autoridade:
Pena – prisão, DE UM A QUATRO ANOS.

… e o que dispõe o Artigo 391:

Praticar ato de abuso ou maus-tratos a animais domésticos, domesticados ou silvestres, nativos ou exóticos:
Pena – prisão, de um a quatro anos.
§ 1o Incorre nas mesmas penas quem realiza experiência dolorosa ou cruel em animal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos alternativos.
§ 2o A pena é aumentada de um sexto a um terço se ocorre lesão grave permanente ou mutilação do animal.
§ 3º A pena é aumentada de metade se ocorre morte do animal.

A imitação do amanhecer (por Bruno Tolentino)

III-165

Ó Via Láctea, ó luminosa irmã — segundo
Apollinaire — dos fios brancos da água vã,
a água furtiva que visita o chão do mundo
e vai-se evaporando também, ó minha irmã
mais ancestral, mais nebulosa, ó vaga lã
dos vãos novelos em que eu ando, um moribundo
no intemporal, sinal apenas de que o fundo
de tudo e de mim mesmo é a solidão pagã
da alma febril que se evapora e historiciza,
ó ampliação de Alexandria, ó via branca
e tenebrosa, é tudo a rosa que se arranca,
pétala a pétala, às profanações da cinza,
ó Via Láctea, ó minha irmã que pões a tranca
da imensidão no coração do que agoniza…

– o grifo é meu.

Fator Rússia

Estudar Rússia é uma questão de sobrevivência intelectual. Emprego a palavra “estudar” no sentido de tentar entender, que pode se estender a passar a vida tentando entender. Eu, por exemplo, pra elaborar a pequena frase que encabeça esse texto levei quase uma década.
Essa pequena frase é uma daquelas certezas que crescem com o cara, amadurecem, até que um dia, inopinadamente, vira verbo, como um grito de eureka na banheira, como uma ideia sofisticada durante um pileque, ou mesmo no meio de uma crise de hérnia passando o arquipélago do Bailique. Essa pequena frase é aquele tipo de coisa que caminhou lentamente da mera desconfiança pra clareza absoluta, sem escapar incólume pelas armadilhas do achismo.
Só consigo afirmá-la porque ela já se mostrou madura, afinal, já não era sem tempo: lá se vão nove anos desde que entrei em contato pela primeira vez com o mundo russo (com O Idiota). Desd’aí, sem fazer alarde, o número de coisas que foram chegando e não passavam pelo, digamos, “crivo-Rússia” foi ficando cada vez menor – e ultimamente beirou o zero.
Saindo dos giros clássicos, resolvi encarar um escritor pós-URSS: Vladímir Voinóvitch (Propaganda Monumental). O resultado desta recente experiência me atrevo a resumir: a similaridade do humor, da miséria e do pedantismo das personagens russas com o Brasil (em especial Belém) não é coincidência. As histórias russas são tão extraordinariamente vivas para nós – que vivemos tão longe – que lá pelas tantas soou estranho o fato de eu não conseguir passar uma cantada no mesmo idioma da Maria Kirilenko.
Mais que isso (bem mais que isso) foi esquisito perceber como uma coisa tão incorporada em TODOS os fenômenos modernos é encarada com tanta sordidez e estranheza, quando deveria estar tão próxima de nós como está a cultura americana, a realeza britânica, ou mesmo esses programas do neo-budismo, do esoterismo romântico, do africanismo, entre outros badulaques que o brasileiro sincretiza no seu dia-a-dia sem a menor cerimônia.
Esqueça: não vou começar a pregar algum tipo de filo-eslavismo. Até porque seria desnecessário: já vivemos num, ainda que poucos percebam. O triste é que vivemos o mais pobre, pretensioso e deplorável da experiência russa. E o estranho é viver dentro de tais e quais condições (artificiais) e passar batido por elas. Encaramos o nome de Vladimir Ilitch Ulianóv como se tratasse de um alienígena quando, na verdade, foi um sujeito que se transformou em um em pleno século XX, foi mumificado depois de morto, e costumava atender pelo vulgo de Lênin.
– E o que diabos isso tem a ver conosco?, como a múmia dos soviets interfere no preço da farinha?
A maioria das pessoas, inclusive as mais bem educadas, não acredita que sobre seu destino pesa a mão da história. À maioria parece que a humanidade alcançou um ótimo grau de maturidade e tudo será como deve ser hoje, e assim as coisas vão se acumulando sem levantar suspeitas. Se diante de nossos olhos acontece algum fato extraordinário, entendemos aquilo como mero resultado da coincidência de coisas ocasionais – “a ocasião faz o ladrão”. Tão logo o noticiário toma um novo rumo e a noite esfria, logo nos parece que tudo vai voltar a ser como era antes. Uns desejam que seja assim, outros temem que assim seja. Nesse novo Brasil das manifestações, vamos nos dividindo entre os saudosos do regime e os que temem os “anos de chumbo”. Ninguém parece compreender que o tempo não volta atrás.
Seria preciso um esforço acadêmico pra identificar influências soviéticas em coisas tão triviais como o litro da farinha. Obviamente o preço das coisas tem alguma relação com a administração atual – sobretudo se a farinha for produzida pelas FARCs, se é que você me entende. Entretanto, prefiro investir minhas energias concentrando-me no óbvio, que geralmente é onde estão as melhores surpresas. Então vamos a ele, ao óbvio:
No post anterior publiquei a carta em que uma cineasta revela os motivos pelos quais resolveu abandonar o coletivo Fora do Eixo. Lá pelas tantas, ela se revela surpreendida pelo fato do coletivo não lhe remunerar pelas participações em palestras, convenções etc, e ainda querer se apropriar de sua obra. Será que a nossa cineasta não desconfiava nada de quem ela tava se metendo?
                … ora, o pessoal do Fora do Eixo é o mesmo que apoia esses movimentos de royalties free, pró-pirataria, etc etc – como discutir direitos com quem caga no conceito de propriedade privada? É uma atitude imprópria ao tipo de ambiente em que eles se habituaram, de modo que “de onde vem a grana?” torna-se uma pergunta indiscreta, além de boba e carente de sentido.
O movimento Fora do Eixo reza na cartilha do marxismo cultural, ou por outra: remunerações, castas hierárquicas, direcionamentos, tudo obedece (com o devido rearranjo local) à velha prática das instituições de cepa comunista. Vejamos o exemplo no livro do Voinóvitch:
“O movimento Por Você e por Aquele Parceiro nasceu na época em que o povo, cansado da construção geral do comunismo, ansiava por estímulos materiais. Deram-lhe, então, em vez de dinheiro e uma vida melhor, novos e radiosos ideais; lançaram-lhe ideias patrióticas. Armado ideologicamente, o povo atendeu ao apelo do Partido e do Komsomol, ou, em alguns casos, à determinação do juiz, e derrubou a taiga, abriu canais, desbravou terras virgens, estendeu a ferrovia Baikal-Amur. Enquanto isso, vivia em tendas e barracas e comia porcarias impensáveis. E para que o povo gastasse as suas forças, calorias e saúde com maior entusiasmo, o Partido o premiava com diversas condecorações, medalhas, insígnias, diplomas, flâmulas e bandeiras da emulação socialista, além de criar pseudomovimentos, simulando que o próprio povo os teria concebido. Havia muitos deles.”
 – Alô, dona Beatriz Seigner!, algo lhe soa familiar?
                O Fora do Eixo é um desses “muitos deles”, a milhares de quilômetros, há décadas do “Por Você e por Aquele Parceiro”. Mas aqui e agora a grana e a qualidade de vida, como vemos na carta da Beatriz, continua sendo transformada num valor inferior às condecorações, à mera possibilidade de galgar postos de liderança ou de se aproximar de um líder. Nesse esquema, o peido do Pablo Capilé pode virar um mantra na boca de seus seguidores. Lá dentro ninguém duvida de ninguém, não se vê discordâncias, tudo é unânime e inquestionável. Agora, será que tudo num livro escrito sobre a Rússia dos anos 60 é mera coincidência com a movimentação interna do Fora do Eixo?, será que os nossos movimentos civis têm que ser assim, com esse clima de neo-socialismo e camaradagem insegura?
                De qualquer maneira, nunca vi arte, partidarismo e administração pública se misturarem e daí sair coisa que preste. Esse tipo de arte fede. O artista fica condicionado a puxar o saco de um líder – que metonimicamente é chamado de “Povo”. Uma hora ninguém consegue mais suportar a nhaca dessas rodinhas de artistas e então esses viados começam a acumular sucessivos fracassos na carreira (vide o caso Ziraldo, que sobrevive de indenizações dos tempos da ditadura e conchavos afins).
                A carta da Beatriz Seigner é um daqueles documentos pra imprimir e ser analisado com muita paciência. Mas vamos combinar: sobrou ingenuidade. A própria autora parece não se dar conta de estar num setor onde esse tipo de articulação canhestra é moeda corrente. O dinheiro que você, dona Beatriz, se desespera em não encontrar só aparece depois de um longo trajeto de dedicação ao “Partido”. Sendo franco, não acredito que você desconheça isso. O próprio tema do seu filme e vários deslizes na sua carta levam a crer que você sabe muito bem onde se meteu. Minha tese é que salgaram a sua bebida no Fora do Eixo e você não gostou. E a coisa vai morrer numa discussão interna.
                Quero dizer: pela hierarquia tácita (talvez escrita em algum lugar) incluem-se na folha de pagamento da administração pública os funcionários-padrão e os integrantes da classe artística – cineastas, ex-tropicalistas, atores – bem relacionados com as autoridades. Inacreditável alguém do ramo nunca ter desconfiado disso. Yes, nós temos bananas e uma ditadura. A ditadura perfeita tem, como dizia Aldous Huxley, “a mesma aparência de uma democracia. Uma prisão sem muros onde os presos não sonharão sequer com uma fuga. Um sistema de escravatura que, graças ao consumo e à diversão, os escravos terão amor pela servidão”.
                Por fim, outro exemplo óbvio de influência soviética em nosso Brasil Varonil é a moda vândala que pegou o país de jeito. Tenho dúvidas quanto à fonte, mas andam dizendo que há um campo de treinamento no Mato Grosso onde essa gente aprende a fabricar coquetéis molotovs, escudos de madeirite, etc. Eles supostamente estão sendo treinados por guerrilheiros experientes e líderes do MST. Sendo que guerrilheiros experientes, como já é de conhecimento público, foram treinados em Cuba nos anos 70. E o castrismo, como também é de conhecimento público, foi sustentado pelo politburo com dinheiro da KGB – cujos membros hoje são os políticos e oligarcas russos que compram meio mundo num final de semana. (Aliás, Molotov era o pseudônimo de um antigo diplomata soviético)
De qualquer modo fica o alerta: especula-se que os próximos alvos dos idiotas incendiários estão previstos para o desfile do 7 de Setembro e o ROCK IN RIO..
Obs: veja os conceitos gramscianos de “intelectual orgânico”, “ocupação” e “hegemonia cultural” e entenda o que o Pablo Capilé quer dizer com DUTOS dentro do Fora do Eixo.

Fora do Fora do Eixo (por Beatriz Seigner)

Conheci um representante da rede Fora do Eixo durante um trajeto de ônibus do Festival de Cinema de Gramado de 2011, onde eu havia sido convidada para exibir meu filme “Bollywood Dream – O Sonho Bollywoodiano” e ele havia sido convidado a participar de um debate sobre formas alternativas de distribuição de filmes no Brasil.

Meu filme havia sido lançado naquele mesmo ano no circuito comercial de cinemas, em mais de 19 cidades brasileiras, distribuído pela Espaço Filmes, e o rapaz me contava de como o Fora do Eixo estava articulando pela internet os cerca de 1000 cineclubes do programa do governo Cine Mais Cultura, assim como outros cineclubes de pontos de cultura, escolas, universidades, coletivos e pontos de exibição alternativos, que estavam conectados à internet nas cidades mais longínquas do Brasil, para fazerem exibição simultânea de filmes com debate tanto presencialmente, quanto ao vivo, por skype. Eu achei a idéia o máximo. Me disponibilizei, a mim e ao meu filme para participar destas exibições, pois realmente acredito na necessidade de democratizar o acesso aos bens culturais no país, e sei como é angustiante, nestas cidades distantes, viver sem acesso à cultura alternativa e mais diversas artes.

Foi então organizado o lançamento do meu filme nos cineclubes associados à rede Fora do Eixo durante o Grito Rock 2012, no qual eu também me disponibilizei a participar de uma tournée de debates no interior de São Paulo, na cidade do Rio de Janeiro, e por skype com outros cineclubes que aderissem à “campanha de exibição”, como eles chamam.

Com relação à remuneração eles me explicaram que aquele ainda era um projeto embrionário, sem recursos próprios, mas que podiam pagá-lo com “Cubo Card”, a moeda solidária deles, que poderia ser trocada por serviços de design, de construção de sites, entre outras coisas. Já adianto aqui que nunca vi nem sequer nenhum centavo deste cubo card, ou a plataforma com ‘menu de serviços’ onde esta moeda é trocada.

E fiquei sabendo que algumas destas exibições com debate presencial no interior de SP seriam patrocinadas pelo SESC – pois o SESC pede a assinatura do artista que vai fazer a performance ou exibir seu filme nos seus contratos, independente do intermediário. E só por eles pedirem isso é que fiquei sabendo que algumas destas exibições tinham sim, patrocinador. Fui descobrir outros patrocinadores nos posters e banners do Grito Rock de cada cidade. Destes eu não recebi um centavo.

No entanto, foi realmente muito animador ver a quantidade de pessoas sedentas por cultura alternativa em todas as cidades de pequeno e médio porte pelas quais passei. Foi também incrível conversar com cinéfilos por skype de cidadezinhas do Acre, Manaus, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Bahia, Paraíba, Mato Grosso, Goiania, Santa Catarina, Distrito Federal, Rio de Janeiro, São Paulo, entre outras cidades. Pelo que eu via, tinha entre 50 a 150 pessoas em cada sessão. Eu perdi a conta de quantos debates e exibições foram feitas, mas o Fora do Eixo havia me prometido como contra-partida uma foto de cada exibição onde fosse visível o número de público destas, e uma tabela com as cidades e quantidades de exibições que foram feitas. Coisa que também nunca recebi.

De qualquer maneira, empolgada com esta quantidade de pessoas que não querem consumir cultura de massa, em todas estas cidades, entrei em contato com colegas cineastas e distribuidores para que também disponibilizassem seus filmes, pois via o potencial de fortalecimento destes pontos de exibição em todos estes lugares, de crescimento do número de cinéfilos, e de pessoas que têm o desejo de desfrutar coletivamente de um filme, ou de outra obra de arte, de discuti-la, pesquisá-la, e se possível debatê-la com seus realizadores. Estava realmente impressionada com a quantidade de pessoas em todas estas cidades sedentas por arte. Se eu tivesse nascido em uma delas, via que seguramente seria uma delas, e mal conseguia imaginar como deve ser insuportável viver em uma cidade onde não há teatro, cinema alternativo, e muitas vezes nem sequer bibliotecas.

A idéia seria então de fazer um projeto para captar recursos para viabilizar estas exibições. Pensamos em algo como cada cineclube ou ponto de exibição que exibisse um filme receberia 100 reais para organizar e divulgar a sessão, e cada cineasta receberia o mesmo valor pelos diretos de exibição de seu filme naquele lugar. E caso houvesse debate presencial receberia mais cerca de mil reais de cachê pelo debate, e por skype ao vivo cerca de 500 reais pelo debate de até 3 horas.

Pensando em rede, se mil cineclubes exibissem um filme, o cineasta poderia receber, no mínimo, 100 mil reais por estas exibições. Eu ainda acho que é um projeto que deve ser realizado. E que esta ligação entre os cineclubes deveria ser feita por uma plataforma pública online do governo, onde ficaria o armazenamento destes filmes para download com senha e crédito paypal para estes pontos de exibição (sejam eles cineclubes, escolas, universidades, pontos de cultura etc).

Assim como também acho que os “Céus das Artes” que estão sendo construídos no país todo deveriam ter salas de cinema separadas dos teatros, com programação diária, constante, aumentando em 15% o parque exibidor brasileiro, e capacitando o governo de fazer políticas de exibição de filmes gratuitas ou com preços populares, em lugares onde simplesmente não há cinemas, muito menos, de arte.

Mas isso já é outra história. Voltemos ao Fora do Eixo.

E quando foi que o projeto degringolou? ou quando foi que me assustei com o Fora do Eixo?

Meu primeiro susto foi quando perguntaram se podiam colocar a logomarca deles no meu filme – para ser uma ‘realização Fora do Eixo’, em seu catálogo. Eu disse que o filme havia sido feito sem nenhum recurso público e que a cota mínima para um patrocinador ter sua logomarca nele era de 50 mil reais. Eles desistiram.

O segundo susto veio justamente na exibição com debate em um SESC do interior de SP, quando recebi o contrato do SESC, e vi que o Fora do Eixo estava recebendo por aquela sessão, em meu nome, e não haviam me consultado sobre aquilo. Assinei o contrato minutos antes da exibição e cobrei do Fora do Eixo aquele valor descrito ali como sendo de meu cachê, coisa que eles me repassaram mais de 9 meses depois, porque os cobrei, publicamente.

O terceiro susto veio quando me levaram para jantar na casa da diretora de marketing da Vale do Rio Doce, no Rio de Janeiro, onde falavam dos números fabulosos (e sempre superfaturados) da quantidade de pessoas que estavam comparecendo às sessões dos filmes, aos festivais de música, e do poder do Fora do Eixo em articular todas aquelas pessoas em todas estas cidades. Falavam do público que compareciam a estas exibições e espetáculos como sendo filiados à eles. Ou como se eles tivessem qualquer poder sobre este público.

Foi aí que conheci pela primeira vez o Pablo Capilé, fundador da marca/rede Fora do Eixo, um pouco antes deste jantar. Até então haviam me dito que a rede era descentralizada, e eu havia acreditado, mas imediatamente quando vi a reverência com que todos o escutam, o obedecem, não o contradizem ou criticam, percebi que ele é o líder daqueles jovens, e que ao redor dele orbitavam aqueles que eles chamam de “cúpula” ou “primeiro escalão” do FdE.

O susto veio, não apenas por conta de perceber esta centralidade de liderança, mas porque o Pablo Capilé dizia que não deveria haver curadoria dos filmes a serem exibidos neste circuito de cineclubes, que se a Xuxa liberasse os filmes dela, eles seguramente fariam campanha para estes filmes serem consumidos pois dariam mais visibilidade ao Fora do Eixo, e trariam mais pessoas para ‘curtir’ as fotos e a rede deles – pessoas estas que ele contabilizaria, para seus patrocinadores tanto no âmbito público, quanto privado. “Olha só quantas pessoas fizemos sair de suas casas”. E que ele era contra pagar cachês aos artistas, pois se pagasse valorizaria a atividade dos mesmos e incentivaria a pessoa ‘lá na ponta’ da rede, como eles dizem, a serem artistas e não ‘DUTO’ como ele precisava. Eu perguntei o que ele queria dizer com “duto”, ele falou sem a menor cerimônia: “duto, os canos por onde passam o esgoto”.

Eu fiquei chocada. Não apenas pela total falta de respeito por aqueles que dedicam a maior quantidades de horas de sua vida para o desenvolvimento da produção artística (e quando eu argumentava isso ele tirava sarro dizendo ‘todo mundo é artista’ ao que eu respondia ‘todo mundo é esportista também – mas quantos têm a vocação e prazer de ficar mais de 8 horas diárias treinando e se aprofundando em determinada forma de expressão? quantas pessoas que jogam uma pelada no fim de semana querem e têm o talento para serem jogadores profissionais?” “mas se pudesse escolher todo mundo seria artista” “não necessariamente, leia as biografias de todos os grandes compositores, escritores, cineastas, coreógrafos, músicos, dançarinos – quero ver quem gostaria de ter aquelas infâncias violentadas, viver na miséria econômicas, passar horas de dedicando-se a coisas consideradas inúteis por outros – vai ver se quem é artista, se pudesse escolher outra forma de vocação se não escolheria ter vontade de ser feliz sendo médico, advogado, empresário, cientista social.”).

Enfim, o fato é que eu acreditava e continuo acreditando que se a pessoa na ponta da rede, seja no Acre ou onde quer que seja, se esta pessoa tiver vontade de passar a maior quantidade de tempo possível praticando qualquer forma de expressão artística, seja encarando páginas em branco, lapidando textos, lapidando filmes, treinando danças, coreografias, teatro, seja praticando um instrumento musical (e quem toca instrumentos musicais sabe a quantidade de horas de prática para se chegar à liberdade de domínio do instrumento e de seu próprio corpo, os tais 99% de suor para 1% de inspiração), quem quer que seja que encontre felicidade nestas horas e horas de prática cotidiana artística deve produzir tais obras e não ser DUTO de coisa alguma.

Pois existem pessoas no mundo que não têm este prazer de produção artística, mas têm prazer em exibir, promover, e compartilhar estas obras. E tá tudo certo. Temos diversos exemplos de pessoas assim: vejam a paixão com que o Leon Cakof e a Renata de Almeida produziam e produzem a Mostra de São Paulo. O pessoal da Mostra de Tiradentes. E de tantas outras. Existe paixão pra tudo. E não, exibidores, programadores, curadores, professores, críticos de cinema ou de arte não são artistas frustrados – mas pessoas cuja a paixão deles é esta: analisar, comentar, debater, ensinar, deflagrar e ampliar o pensamento e a reflexão sobre as diversos âmbitos de atuação humanos. Que bom que tem gente com estas paixões tão complementares!

E o meu choque ao discutir com o Pablo Capilé foi ver que ele não tem paixão alguma pela produção cultural ou artística, que ele diz que ver filmes é “perda de tempo”, que livros, mesmo os clássicos, (que continuam sendo lidos e necessários há séculos), são “tecnologias ultrapassadas”, e que ele simplesmente não cultiva nada daquilo que ele quer representar. Nem ele nem os outros moradores das casas Fora do Eixo (já explico melhor sobre isso).

Ou seja, ele quer fazer shows, exibir filmes, peças de teatro, dança, simplesmente porque estas ações culturais/artísticas juntam muita gente em qualquer lugar, que vão sair nas fotos que eles tiram e mostram aos seus patrocinadores dizendo que mobilizam “tantas mil pessoas” junto ao poder público e privado, e que por tanto, querem mais dinheiro, ou privilégios políticos.

Vejam que esperto: se Pablo Capilé dizer que vai falar num palanque, não iria aparecer nem meia dúzia de pessoas para ouvi-lo, mas se disserem que o Criolo vai dar um show, aparecem milhares. Ou seja, quem mobiliza é o Criolo, e não ele. Mas depois ele tira as fotos do show do Criolo, e vai na Secretaria da Cultura dizendo que foi ele e sua rede que mobilizou aquelas pessoas. E assim, consequentemente, com todos os artistas que fazem participação em qualquer evento ligado à rede FdE. Acredito que, como eu, a maioria destes artistas não saibam o quanto Pablo Capilé capitaliza em cima deles, e de seus públicos.

Mesmo porque ele diz que as planilhas do orçamento do Fora do Eixo são transparentes e abertas na internet, sendo isso outra grande mentira lavada – tais planilhas não encontram-se na internet, nem sequer os próprios moradores das casas Fora do Eixo as viram, ou sabem onde estão. Em recente entrevista no Roda Viva, Capilé disse que arrecadam entre 3 e 5 milhões de reais por ano. Quanto disso é redistribuído para os artistas que se apresentam na rede?

O último dado que tive é que o Criolo recebia cerca de 20 mil reais para um show com eles, enquanto outra banda desconhecida não recebe nem 250 reais, na casa FdE São Paulo.

Mas seria extremamente importante que os patrocinadores destes milhões exigissem o contrato assinado com cada um destes artistas, baseado pelo menos no mínimo sindical de cada uma das áreas, para ter certeza que tais recursos estão sendo repassados, como faz o SESC.

Depois deste choque com o discurso do Pablo Capilé, ainda acompanhei a dinâmica da rede por mais alguns meses (foi cerca de 1 ano que tive contato constante com eles), pois queria ver se este ódio que ele carrega contra as artes e os artistas era algo particular dele, ou se estendia à toda a rede. Para a minha surpresa, me deparei com algo ainda mais assustador: as pessoas que moram e trabalham nas casas do Fora do Eixo simplesmente não têm tempo para desfrutar os filmes, peças de teatro, dança, livros, shows, pois estão 24 horas por dia, 7 dias por semana, trabalhando na campanha de marketing das ações do FdE no facebook, twitter e demais redes sociais.

E como elas vivem e trabalham coletivamente no mesmo espaço, gera-se um frenesi coletivo por produtividade, que, aliado ao fato de todos ali não terem horário de trabalho definido, acreditarem no mantra ‘trabalho é vida’, e não receberem salário, e portanto se sentirem constantemente devedores ao caixa coletivo, da verba que vem da produção de ações que acontecem “na ponta”, em outros coletivos aliados à rede, faz com que simplesmente, na casa Fora do Eixo em São Paulo, não se encontre nenhum indivíduo lendo um livro, vendo uma peça, assistindo a um filme, fazendo qualquer curso, fora da rede. Quem já cruzou com eles em festivais nos quais eles entraram como parceiros sabem do que estou falando: eles não entram para assistir a nenhum filme, nem assistem/participam de nenhum debate que não seja o deles. O que faz com que, depois de um tempo, eles não consigam falar de outra coisa que não sejam eles mesmos.

Sim, soa como seita religiosa.

Eu comecei a questionar esta prática: como vocês querem promover a cultura, se não a cultivam? Ao que me responderam “enquanto o povo brasileiro todo não puder assistir a um filme no cinema, nós também não vamos”. Eu perguntei se eles sabiam que havia mostras gratuitas de filmes, peças de teatro, dança, bibliotecas públicas, universidades públicas onde pode-se assistir a qualquer aula/curso – ao que me responderam que eles não têm tempo para perder com estas coisas.

Pode parecer algo muito minimalista, mas eu acho chocante eles se denominarem o “movimento social da cultura”, e não cultivar nem a produção nem o desfrute das atividades artísticas da cidade onde estão, considerando-se mártires por isso, orgulhando-se de serem chamados de “precariado cognitivo” (sem perceber o tamanho desta ofensa – podemos nos conformar em viver no precariado material, mas cultivar e querer espalhar o precariado de pensamentos, de massa crítica, de sensibilidade cognitiva, é algo muito grave para o desenvolvimento de seres humanos, e consequentemente da humanidade).

Concomitantemente a isso, reparei que aquela massa de pessoas que trabalham 24 horas por dia naquelas campanhas de publicidade das ações da rede FdE, não assinam nenhuma de suas criações: sejam textos, fotos, vídeos, pôsters, sites, ações, produções. Pois assinar aquilo que se diz, aquilo que se mostra, que se faz, ou que se cria, é considerado “egóico” para eles. Toda a produção que fazem é assinada simplesmente com a logomarca do Fora do Eixo, o que faz com que não saibamos quem são aquele exercito de criadores, mas sabemos que estão sob o teto e comando de Pablo Capilé, o fundador da marca.

E que não, a marca do fora do Eixo não está ligada a um CNPJ, nem de ONG, nem de Associação, nem de Cooperativa, nem de nada – pois se estivesse, ele seguramente já estaria sendo processado por trabalho escravo e estelionato de suas criações, por dezenas de pessoas que passaram um período de suas vidas nas casas Fora do Eixo, e saem das mesmas, ao se deparar com estas mesmas questões que exponho aqui, e outras ainda mais obscuras e complexas.

Me explico melhor: existem muitos dissidentes que se aproximam da rede pois vêem nela a possibilidade de viver da criação e circulação artística, de modificar suas cidades e fortalecer o impacto social da arte na população das mesmas, que depois de um tempo trabalhando para eles percebem, tal qual eu percebi, as incongruências do movimento Fora do Eixo. Que aquilo que falam, ou divulgam, não é aquilo que praticam. É a pura cultura da publicidade vazia enraizada nos hábitos diários daquelas pessoas.

E além disso, o que talvez seja mais grave: quem mora nas casas Fora do Eixo, abdicam de salários por meses e anos, e portanto não têm um centavo ou fundo de garantia para sair da rede. Também não adquirem portfólio de produção, uma vez que não assinaram nada do que fizeram lá dentro – nem fotos, nem cartazes, nem sites, nem textos, nem vídeos. E, portanto, acabam se submetendo àquela situação de escravidão (pós)moderna, simplesmente pois não vêem como sobreviver da produção e circulação artística, fora da rede. Muitas destas pessoas são incentivadas pelo próprio Pablo Capilé a abandonar suas faculdades para se dedicarem integralmente ao Fora do Eixo. Quanto menos autonomia intelectual e financeira estas pessoas tiverem, melhor para ele.

E quando algumas destas pessoas conseguem sair, pois têm meios financeiros independentes da rede FdE para isso, ficam com medo de retaliação, pois vêem o poder de intermediação que o Capilé conseguiu junto ao Estado e aos patrocinadores de cultura no país, e temem serem “queimados” com estes. Ou mesmo sofrer agressões físicas. Já três pessoas me contaram ouvir de um dos membros do FdE, ao se desligarem da rede, ameaças tais quais “você está falando de mais, se estivéssemos na década de 70 ou na faixa de gaza você já estaria morto/a.” Como alguns me contaram, “eles funcionam como uma seita religiosa-política, tem gente ali capaz de tudo” na tal ânsia de disputa por cada vez mais hegemonia de pensamento, por popularidade e poder político, capital simbólico e material, de adeptos. Por isso se calam.

Fiquei sabendo de uma menina que produziu o Grito Rock 2012 em Braga, em Portugal, no qual exibiram meu filme. Ela me contou que estava de intercâmbio da universidade lá, e uma amiga dela que havia sido “abduzida pelo Fora do Eixo” entrou em contato perguntando se ela e um amigo não queriam exibir o filme em Braga, produzir o show de uma banda na universidade, fazer a divulgação destas ações nas redes sociais. Ela achou boa a idéia e qual não foi sua surpresa quando viu que em todos os materiais de divulgação do evento que lhe enviaram estava escrito “realização Fora do Eixo”. “Eu nunca fui do Fora do Eixo, não tenho nada a ver com eles, como assim meu nome não saiu em nada? Não vou poder usar estas produções no meu currículo? E pior, eles agora falam que o Fora do Eixo está até em Portugal, e em sei lá quantos países. Isso é simplesmente mentira. Eu não sou, nem nunca fui do Fora do Eixo.”

O que leva a outro ponto grave das falácias do Fora do Eixo: sua falta de precisão numérica. Pablo Capilé, quando vai intermediar recursos junto ao poder público ou privado, para capitalizar a rede FdE, fala números completamente aleatórios “somos mais de 2 mil pessoas em mais de 200 cidades na America Latina”. Cadê a assinatura destas pessoas dizendo que são realmente filiadas à rede? Qualquer associação, cooperativa, partido político, fundação, ONG, ou movimento social tem estes dados. Reais, e não imaginários.

Quando visitei algumas das casas Fora do Eixo, estas pessoas morando e trabalhando lá não chegavam a 10% daquilo que ele diz a rede conter. E estas pessoas são treinadas com a estratégia de marketing da rede, de “englobar” no facebook e twitter alguém que eles consideram estrategicamente importante para o Fora do Eixo, seja um vereador, um intelectual, um artista, um secretário da cultura, e replicam simultaneamente as fotos e textos dos eventos do qual produzem, divulgam, ou simplesmente se aproximam (já vou falar dos outros movimentos sociais que expulsam o Fora do Eixo de suas manifestações – pois eles tiram fotos de si no meio destas ações dos outros e depois vão ao poder público dizer que as representam), ao redor daquelas pessoas estratégicas, política e economicamente para eles, que as adicionaram ao mesmo tempo, criando uma realidade virtual paralela que eles manipulam ao redor desta pessoa. Pois, se esta pessoa ‘englobada’ apertar ‘ocultar’ nas cerca de150 pessoas que trabalham nas casas Fora do Eixo, verá que muito raramente estas informações chegam por outras vias. Ou seja, eles simulam um impacto midiático muito maior de suas ações, apara aqueles que lhes interessam, do que o impacto real das mesmas nas populações e localizações onde aconteceram.

E com isso vão construindo esta realidade falsa, paralela. Controlada por eles, sob liderança do Pablo Capilé.

Dos movimentos sociais que começaram a expulsar os Fora do Eixo de suas manifestações e ações, pois estes, como os melhores mandrakes, ao tentar dominar a comunicação destas, iam depois ao poder público dizer representá-las, estão o movimento do Hip Hop em São Paulo, as Mãe de Maio (que encabeçam o movimento pela desmilitarização da PM aqui), o Cordão da Mentira (que une diversos coletivos e movimentos sociais para a passeata de 1º de Abril, dia do golpe Militar no Brasil, escrachando os lugares e instituições que contribuíram para o mesmo), a Associação de Moradores da Favela do Moinho, o coletivo Zagaia, o Passa-Palavra, o Ocupa Mídia, O Ocupa Sampa, o Ocupa Rio, Ocupa Funarte, entre outros. Até membros do Movimento Passe Livre tem discutido publicamente o assunto dizendo que o Fora do Eixo não os representam, e não podem falar em seu nome.

Sobre a transmissão de protestos e ocupações, são milhares de pessoas em diversos países que transmitem as manifestações no mundo todo, em tempo real, e acredito que os inventores que fizeram os primeiros smartphones conectando vídeo com internet, são realmente tão importantes para a comunicação na atualidade quanto os inventores do telégrafo foram em outra época.

Já o Fora do Eixo, agora denominados de Mídia Ninja, (antes era Mídia Fora do Eixo, mas como são muito expulsos de manifestações resolveram mudar de nome) utilizar os vídeos feitos por centenas de pessoas não ligadas ao Fora do Eixo, editá-los, subí-los no canal sob seu selo, e querer capitalizar em cima disso – sem repassar os recursos para as pessoas que realmente filmaram estes vídeos/fizeram estas fotos e textos – inclusive do PM infiltrado mudando de roupa e atirando o molotov – eu já acho bastante discutível eticamente.

Sobre a questão do anonimato nos textos e fotos, acredito que esta prática acaba fazendo com que eles façam exatamente aquilo que criticam na grande mídia: espalham boatos anônimos, sem o menor comprometimento com a verdade, com a pesquisa, com a acuidade dos dados e fatos.

Mas enfim, acho que a discussão é muito mais profunda do que a Midía Ninja em si, apesar deles também se beneficiarem do trabalho escravo daqueles que vivem nas casas Fora do Eixo.

Acredito com este relato estar dando minha contribuição pública à discussão de o que é o Fora do Eixo, como se financiam e sustentam a rede, quais seus lados bons e seus lados perversos, onde é que enganam as pessoas, dizendo-se transparentes, impunemente.

Contribuição esta que acredito ser meu dever público, uma vez que, ao me encantar com a rede, e haver vislumbrado a possibilidade de interagir com cinéfilos do rincões mais distantes do país, que não têm acesso aos bens culturais produzidos ou circulados por aqui, incentivei outros colegas cineastas a fazerem o mesmo. Já conversei pessoalmente com todos aqueles que pude, explicando tudo aquilo que exponho aqui também. Dos cineastas que soube que também liberaram seus filmes para serem exibidos pela rede, nenhum recebeu qualquer feedback destas exibições, sejam em fotos com o número de pessoas no públicos, seja com a tabela de cidades em que passaram, seja de eventuais patrocínio que os exibidores receberam. E como talvez tenha alguém mais com quem eu não tenha conseguido falar pessoalmente, fica aqui registrado o testemunho público sobre minha experiência com a rede Fora do Eixo, para que outras pessoas possam tomar a decisão de forma mais consciente caso queiram ou não colaborar com ela.

Espero que os patrocinadores da rede tomem também conhecimento de todas estas falácias, e cobrem do Fora do Eixo o número exato de participantes, com assinatura dos mesmos, os contratos e recibo de repasse das verbas que recebem aos autores das obras e espetáculos que eles dizem promover. E que jornalistas que investigam o trabalho escravo moderno se debrucem também sobre estas casas: pois acredito que as pessoas que estão lá e querem sair precisam de condições financeiras e psicológicas para isso.

Espero também que mais pessoas tomem coragem para publicar seus relatos (e sei que tem muita gente que poderia fazer o mesmo, mas que tem medo pelos motivos que expliquei a cima), e assim teremos uma polifonia importante para quebrar a máscara de consenso ao redor do Fora do Eixo.

E que, mesmo vivendo em plena era da cultura da publicidade, exijamos “mais integridade, por favor”, entre aquilo que dizem e aquilo que fazem aqueles que querem trabalhar, circular, exibir, criar, representar, pensar ou lutar pelo direito fundamental do Homem de produção e desfrute da diversidade artística e cultural de todas as épocas, em nosso tempo.