Pílula vermelha ou azul? – um questionamento idiota

Em primeiro lugar é preciso dizer que entrar numa discussão idiota é tão idiota quanto criar a questão… ou até mais, dependendo do resultado. E o resultado pode ser a triste continuidade do pensamento idiota até um ponto que ele ganhe ares de prática. Enfim, essa questão (que me fizeram depois de assistir Matrix) por muito tempo me perturbou – simplesmente porque eu dei mole, deixei o questionamento invadir minhas reflexões e ignorei minha própria intuição ao assumir como premissa que o abstrato pode ser real.

Uma premissa que, como foi colocada, não admitia refutação.

Quero dizer: quando a questão surgiu foi assumido de antemão que o abstrato pode ser real – e eu, pateticamente, me conformei com aquilo. Como se eu tivesse ficado temporariamente maluco.

Mas vamos a ela, eis a tal da questão:

– “Pílula azul ou pílula vermelha? Você preferiria um mundo inventado por outro homem, onde você tem emprego e come filé; ou essa realidade, que está em franca decomposição?”

Um amigo respondeu que ficaria no mundo da abstração do outro, que tem filé; eu escolhi a “pílula vermelha”, a realidade, me justificando simplesmente pelo fato de odiar a falsidade.

O amigo rebateu minha opção com o argumento de que se aquilo está na minha cabeça, e é o meu “mundo conhecido”, então aquilo também é realidade. E foi aí que eu dei mole e não consegui mais argumentar, a não ser julgando meu interlocutor como um hedonista dos mais insanos, dono de um apetite absurdamente fatal.

Incrível como tanto tempo depois aquela dúvida ainda me perturbava – “porra, se eu conheço uma coisa e só essa coisa, isso é a realidade?”; e outras, ainda mais urgentes, “como ser mais forte que o simples prazer? Por que é tão fácil ser hedonista? Por que a verdade é tão dolorosa?”

Pra piorar minha situação, li uma fábula chinesa sobre um sujeito que, encantado com um sonho onde ele era uma borboleta, não sabia mais distinguir se a borboleta era mesmo um mero sonho, ou se ele, homem, é que era o sonho da borboleta – Matrix puro, pensei.

A boa justificativa para se “optar” pelo real sem sequer cogitar outra possibilidade é uma só: o exercício livre da consciência.

Eu não posso agir criativamente se o meu pensamento está preso num lugar imaginado por outra pessoa. E Matrix não chega a ser nem isso. Matrix é um simulacro da realidade onde, ficcionalmente, os próprios fenômenos acidentais só podem se relacionar dentro de um programa baseado na realidade, e essa realidade é um recorte do próprio conhecimento humano, no sentido histórico. Quer dizer, um programa que nem Matrix não admite acidentes –  tudo o que tem ali, vem da própria história que efetivamente ocorreu, caso contrário a Matrix seria o absurdo – e vemos no filme que não é assim. Tipo isso: o filé que os caras comem lá, mal passado, é uma invenção gastronômica que não veio da Matrix, veio da realidade histórica, ora. Alguém viu aquilo e emulou ali – e é só.

O programa da Matrix é só outra invenção. A Matrix mesmo é uma circunstância acidental dentro das muitas circunstâncias acidentais que formam a realidade. E a realidade é exatamente isso: um conjunto de acidentes em trama.  Pra exercer algum controle sobre essas circunstâncias é preciso que o sujeito, por iniciativa própria, apreenda na sua imaginação um dado retido na realidade e interaja com aquilo usando seu corpo e seu intelecto.

– Agora como é que um cara vai fazer isso se ele não está nem na realidade, porra?

Sonho lúcido? Num sonho lúcido alheio? Ah, pelo amor de Deus!

Não à toa que todo e qualquer filme onde há o tema “rebelião de robôs”, o fim é necessariamente apocalíptico. Um robô não tem vontade própria, robôs não interagem criativamente com a realidade, logo não são capazes de conservar ou transformar um estado de coisas – então tudo naturalmente se acaba.

Mas se a ficção admite que o robô tem desejos, fala e pensa como um humano, então não estamos mais falando de um robô, e sim de uma nova espécie de homem. Talvez estejamos falando da Dilma Rousseff. Nesse caso, o objeto deixou de ser objeto, ganhou status de um ser que admite ser objeto e sujeito, embora artificial – o que é totalmente diferente, além de absurdo. No fundo, não tenho a menor expectativa de que isso venha a ocorrer. É impossível um computador tomar decisões “criativas” sem base em probabilidades que não foram previamente incutidas na memória dele. Ao passo que o primeiro sopro de vida de um homem já é forçosamente intuitivo – a intuição de uma coisa chamada ar. Quer dizer, a memória de um robô é um sistema totalmente dependente do homem. Isso elimina de um robô a chance do livre arbítrio, ele é uma coisa condicionada que vai ficar obsoleta no fenômeno social seguinte. Se disser a um robô que o novo presidente da república é a reencarnação de Jesus, ele vai dizer o quê? Que isso é um tesão? Que reencarnação não existe? Que tem alguém mentindo? Como ele julgaria esse dado entre bom e mal? Obviamente, com base nas opções que algum humano propôs pra ele falar. Senão vai ficar mudo. Além do mais, como uma coisa artificial vai fruir o horror da morte? – que, especula-se, é o grande impulso da criatividade humana.

De todo modo, é muito bom exercitar a imaginação com essas impossibilidades. Quero acreditar que foi esse grande prazer que influenciou meu amigo a achar que tomaria a mesma decisão do vilão tosco; que na hora em que discutíamos aquilo, nem ele e nem eu atentamos pro óbvio: o abstrato não é real. Pelo simples fato de que o abstrato não admite acidentes, sendo ele mesmo outro acidente. O abstrato é só um pensamento humano, um jogo, e é impossível viver dentro de um recorte. Não posso, nem quero crer que outras pessoas seriam tão burras quanto aquele vilão idiota. Um sociopata que, ao ser questionado como fomos, escolheu se submeter a um robô. Talvez o traidor mais patético da história do cinema. É como se alguém, reconhecidamente cruel, chegasse com você com a seguinte proposta: “e aí, malandro, deixa eu ser teu Deus? Acima de mim tem um deus, que essencialmente é igual a você, e que foi o cara que criou o meu programa; só que acima desse cara, tem outro Deus também, o construtor da realidade e suas vicissitudes. Bom, sabendo disso, você aceita se subjugar a mim? Aceita ser servo numa hierarquia onde eu sou apenas um deus de terceira categoria, ciente de que o meu objetivo é exterminar toda essa sua raça imunda? Hein? Garanto o filé.”

– PUTA QUE O PARIU, MALUCO – é muita burrice! É lógico que o cara morreu segundos depois de decidir fazer uma imbecilidade daquelas com a própria vida. Mesmo se ele sobrevivesse, é como se tivesse dado um tiro na consciência. O cara foi comprado por um filé com fritas metafísico! Isso basta pra classificar Matrix como um filme extremamente infantil, um filme de kung-fu com confusas pretensões filosóficas. E todas essas pretensões são categoricamente ignoradas quando a história se utiliza do expediente de um traidor tão, mas tão burro.

Indigestivo cultural

Curioso como a tal crítica especializada trata o escritor Marcelo Mirisola. O cara dá uma entrevista falando um quilo de verdade numa retórica cheia do estilo [pra quem curte: “nosso tempo não é o da literatura”; “big brother é um Dostoiévski sem cérebro”, chupa essa manga, Peter Funny] – e, mesmo assim, ao final da matéria, é classificado como maluco: “Mirisola daria um ótimo caso para um psicólogo, não para a literatura”.

Tudo bem uma pessoa não gostar daquilo (tem gente que lê Augusto Cury) mas de uma crítica especializada eu esperava uma justificativa minimamente técnica sobre forma, sobre conteúdo. Mas não, o entendido apela pro lado pessoal do escritor com intuito claro de diminuí-lo.

Depois de cotejaram sofregamente criador com criatura, a razão que eles encontraram pra rebaixar a literatura do Mirisola é qualquer coisa senão patética. Atacam o cara porque a “voz” dele nos livros é a mesma de um sujeito que “não come ninguém”, a mesma voz que uns “leitores” logo depois dizem conhecer intimamente. Quer dizer, confundem a tal persona literária com a pessoa (como se nós, meros transeuntes, tivéssemos obrigação de conhecê-lo) e ainda aproveitam pra achincalhá-lo, fazer dele um coitado, um perdedor que, devido suas frustrações sexuais e sede de fama, soa inconvenientemente ressentido para os ouvidinhos dos jornalistas. Pelo amor de Deus! O Brasil é mesmo o país dos idiotas. Não à toa o Vilem Flüsser saiu da USP com a mão na frente e a outra atrás.

Se por aqui pintasse um Schopenhauer (famoso por “não comer ninguém”), o bundão do Julio Daio Borges recomendaria o desprezo a Dores do mundo. Quer dizer, a “intelectualidade” brasileira ficou incapaz de lidar com a sinceridade. O brasileiro não admite mais o convívio com a franqueza, e, nesse cenário, se você possuir alguma virtude espiritual, é melhor sair pedindo desculpa pra não ser tachado de idiota, de pretensioso. É muita, mas muita mesquinhez. Tentar falar verdade no Brasil redunda em ter que se desculpar na sequência, ou morrer atropelado por essas panelinhas de gente falsa e cheia de si. Vocês não sentem? Tem algo de podre nesse país – e eu aposto minha vida se essa podridão não passa pela vaidade e por uma sucessão histórica de mentiras.

Tô ficando velho, companheiro (Síria, pt. III)

Além de uma semana correndo atrás de um prejuízo acadêmico que não vale nem a pena comentar, fui seguidamente assaltado por diretas e indiretas no queixo que, em resumo, queriam dizer a mesma coisa: “para de escrever sobre a Síria”, “continua falando de BBB”, “por que se mete?, o assunto não é contigo, tu é só um estudante de merda, deixa isso com o Jabor”.

Preciso dizer que, antes mesmo de assimilar os golpes, eu já me obrigava a reagir. Em primeiro lugar porque depois de tantos anos assistindo e estudando “as media”, é impossível continuar comprando ideia no atacado. A única coisa que ainda lembro do meu primeiro dia de aula na faculdade – além de uma menina que apareceu toda molhada – foi “você nunca mais vai ler um jornal como lia até aqui”. E essa foi a última vez que escutei um jornalista sem desconfiar de nada.

Em segundo lugar, se vocês repararem bem nesses posts da Síria, eu ando seguidamente me negando às acepções gartuitas. De modo que eu tento, na medida do possível, trabalhar com fatos – de preferência fatos que não saíram da boca do Arnaldo Jabor. Quando emito uma opinião sobre um assunto dessa gravidade, procuro me respaldar em alguém cujos argumentos não consegui derrubar (e a partir daí vocês tirem suas conclusões e me refutem, se for o caso) ou então são resultados retirados de uma síntese de lógica simples… 2 – 1 = 1, há fumaça à esquerda e à direita, o jeito é a gente cair fora, esse tipo de coisa.

E terceiro, mas não menos importante, é evidente que o assunto do Oriente tem a ver comigo. É possível passar uma vida inteira falando de consequências de decisões globais que afetam a realidade dos fatos até na hora de se ajoelhar na Igreja, ora.

Também devo confessar: a coisa que mais me excitou neste assunto é a quantidade de gente comprando opinião sobre conflitos no Oriente Médio com base NO NADA – em folhetos, em folders partidários, em montagens de feicebuqui! Além, é claro, dessa propaganda midiática em voga pra derrubar o Bashar al-Assad, vi muita gente postando mensagens anti-Israel e, como a maioria era jornalista, naturalmente comecei a me perguntar “POR QUÊ?” – não foi essa a primeira lição?

Das pessoas que eu vi postando esse tipo de coisa, todas, sem nenhuma exceção, eram esquerdistas – de todos os arrebites, mas todos esquerdistas: veganos, anarquistas, socialistas, praticantes de várias modalidades de comunismo.

Conjecturei, então, que os movimentos sociais de esquerda têm relação direta com essas mensagens. Alguém no comando emite determinadas opiniões que são devidamente reproduzidas por seus sectários – e essas paradas chegam até mim sob forma de propaganda ideológica. Veja bem: todo segmento tem sua intenção determinada, é claro. Mas, em comum, tá essa nova moda de ser anti-Israel e pró-Primavera Árabe. Quer dizer, este é um objeto claramente distinto dos demais, um discurso que não deve tá aí por coincidência, certamente fruto de um estudo sério que tem produzido símbolos pra justificar uma nova descrição do estado de coisas – e que espera uma conduta orientada de quem o vê. Em suma: a boa e velha propaganda.

– Essas mensagens são boas?, são ruins? – não sabia, então comecei a verificar.

Na ‘parte 1’ desse post prometi dizer os impactos dessas coisas na realidade e como diabos isso foi parar na Síria. Bom, en passant citei alguns casos onde o sistema econômico global passou o rodo sem escrúpulos em alguns países. Vimos isso muito claro na Líbia.

A Líbia tinha um contrato de comércio de petróleo com a Itália em função de uma dominação existente desde a 2ª Guerra. Com o novo desenho econômico mundial, começou-se a plantar aquelas velhas notícias alarmistas que se agigantaram na mídia internacional até o ponto que aqueles símbolos de desrespeito à democracia “obrigaram” a ONU a tomar uma atitude. Foram emitidas uma série de comunicados e, na sequência lógica, a ONU autorizou levantarem aviões pra bombardear a Líbia e desestabilizar o sistema de Muanmar Kadhafi. Até o Brasil foi se meter na história.

Plantado o caos, um grupo minoritário se encarregaria de destituir Kadhafi. No fim das contas, tudo pareceu muito bonitinho e verossímil. O Obama estava lá, apertando a mão de um beduíno. Entretanto, mesmo depois de toda a revolução, as últimas eleições na Líbia tiveram fraquíssima adesão: http://www.swissinfo.ch/por/politica_suica/Divisoes_ameacam_eleicoes_na_Libia.html?cid=33043238.

E obviamente, o petróleo que iria para os antigos países contratados, não vai mais: a Itália ficou de mãos atadas pedindo dinheiro emprestado de quem a roubou.

Enfim, no todo, foi-se um déspota, vem outro, muito provavelmente. E você pode conseguir refutar absolutamente tudo o que eu disse até aqui, mas uma coisa tá difícil negar: ditadura por ditadura, a África tá até o talo; e a ONU não foi lá “implantar democracia” por uma única e singela razão: não tem petróleo.

Depois de matarem o cavanhacudo, esses agentes econômicos globalistas se preocuparam em enquadrar o Irã. Motivo: “estamos preocupados com a falta de democracia”. ê tio, dá um tempo. Acima de qualquer coisa, o Irã tem um sistema energético nuclear dos mais avançados já feitos. Se o sistema energético iraniano fosse implementado no mundo, todas, TODAS as empresas de energia faliriam do dia pra noite. O Irã é uma fonte de inveja. http://www.dw.de/ir%C3%A3-acusa-siemens-de-sabotar-programa-nuclear-do-pa%C3%ADs/a-16259968

Então eles agiram no mesminho modus operandis: começaram a plantar essa ideia dos estudos nucleares, disseram que o Irã programava ataques a Israel, etc, etc…

Dezenas de cientistas iranianos relacionados à questão energética começaram a desaparecer que nem moscas. A coisa só quietou quando a marinha iraniana colocou seus navios no Estreito de Ormuz (um gargalo estratégico por onde circula mais da metade do comércio de petróleo do mundo) e ameaçou: “aqui nessa porra não passa mais uma gota de petróleo”. Especula-se que uma subvenção dos russos foi crucial pra desestimular qualquer reação da ONU, e então o Obama também ficou na dele.

Bem, pelo menos o Irã está temporariamente livre da ameaça global.

Mas logo, logo inventaram um novo inimigo: a Síria, do Assad. Conforme o noticiário que eu ouvi de passagem pela sala, a Síria é comandada por um “ditador” – veja só onde a ideia já chegou. Bem, é claro que isso é um fato, mas que esconde mais uma ladainha. A família Assad realmente tem o poder na Síria há muito tempo, o pai dele era governante também. Só que, pesquisando um mínimo sobre esse país você vê que no próprio parlamento deles existem, pasmem, representante do cristianismo! O ministro da educação dos caras é cristão. O premiê era sunita! (e foi o primeiro a cair fora quando começaram as “revoltas”) Que raio de ditador perigoso é esse? Um cosmopolita que vai fazer frente ao projeto global?

Pelo amor de Deus, Assad tem relaçoes amistosas com seus países vizinhos.

A Síria é um dos países mais desenvolvidos do Oriente Médio, tem uma elite bem instruída. Diferente de alguns países europeus, lá pelo menos todo mundo tem dinheiro pra pagar a conta de luz, ninguém precisou vender a geladeira.

Então qual a razão de ser a Síria? Mais uma vez, ENERGIA. A Síria detém um gasoduto enorme, uma parte crucial do controle sobre o metano, o próximo combustível na fila pra entrar na moda. http://www.voltairenet.org/article176218.html

A Síria é a última fronteira. Não à toa que os jornais europeus reportaram navios chineses e russos atracando por ali pra defender as investidas da OTAN.

A coisa é braba: aparece EUA, UE e uma aliança russo-chinesa disputando o resto mundo.

Quando você vai procurar por trás dos panos quais as regras do jogo, você depara com aberrações circulando na obviedade: Israel x Palestina, como estados, dependem da legitimidade da ONU. E quem diabos é ONU? A ONU é quem dita o jogo no oriente petroleiro e não pode ser julgada por ninguém. Quem vai julgar a ONU? Você já viu alguém julgar o Tribunal Penal Internacional? O mais incrível é saber que os únicos que ainda podem fazer isso são os EUA.

Eu sei como é difícil sair de uma situação relativamente cômoda, como é doloroso desacreditar de coisas que sempre pareceram tão confortavelmente congruentes. Aliás, eu mesmo tô vivendo esse processo e, honestamente, poucas vezes me senti tão sozinho – mas tão livre.

O fato de estar sendo lançado de um total estado de ignorância me fez ressuscitar aquela velha lição, a mesma do primeiro dia de aula, que me volta agora com força de conceito: NÃO VOU COMPRAR IDEIAS SEM DESCONFIAR DELAS. É isso, simples assim. Não dá pra se jogar na conversa de que a juventude tem que tomar um partido agora, que eu preciso de um iPhone, que o Paulo Freire vai se remexer no túmulo se eu não der a bunda pro Stédile, que os estudantes bebem, os professores fumam. Isso é pura balela, mixórdia conceitual. A juventude é massa de manobra chave pra todo e qualquer projeto de poder. E eu, de olhos fechados, compro um projeto de vida feito por um propagandista do ramo de petróleo?… Ou peco pelo medo de ficar sozinho com as minhas convicções? Pro inferno! Essas horas nem preciso lembrar quando eu nasci pra me dar conta que eu já tô é velho pra cair nessa.

NINGUÉM FALA DA GABY AQUI

Cuidado, negão!! Ninguém fala da Gaby Amarantos senão o “mainstream” da imprensa paraense e sua manada vão acusar de invejoso recalcado.

Porra, jovem… o povo tem o direito de gostar de Gaby assim como eu tenho o meu de dizer que aquilo é um lixo. Meu gosto não varia de acordo com o que o cara do jornal diz. Aliás, se a minha opinião for a mesma do jornal, o desconfiômetro acende no automático.

Mas Gaby é um caso simples, de gosto mesmo. É ruim. Desculpa, maluco, mas eu acho escroto e não é o Pedro Bial nem os antropólogos da Rede Cultura que vão mudar meu gosto. Eles bem que tentam vender a ideia atirando músicas terríveis na programação, mas várias das coisas que tocam ali são absolutamente intragáveis. Deveriam fazer que nem a Cultura de SP e dedicar um pouco mais de tempo a coisas mais bonitas tipo, sei lá, música de câmara. Lembro que nos anos 90 ainda rolava isso aqui em Belém.

O fato é que a maioria das músicas feitas no Brasil são lixos tóxicos, mesmo. Não é preciso ser especialista pra entender uma coisa dessas, basta ter ouvido. E não é porque a Gaby Amarantos “tá levando o nome do Pará” que eu vou admirá-la – essa é uma justificativa rídícula pra se vender uma ideia. Acredito que não seja o caso, mas quando você ouve esse tipo de discurso tacanho de aprovação vindo de gente da mídia, não dá pra não pensar em promoção forjada, em propaganda chinfrim. Se fosse por isso o ministro da cultura estaria tacando Michel Teló no ouvido o dia todo, levando ao mundo a mensagem do tchu-tcha-tchá. Eu sei que vocês são engenheiros, doutores, advogados, mas poupem nossas inteligências dessa retórica ridícula.

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Só pera lá um pouco: essa galera que criticou a Gaby no feicibuqui se manifestou ao ver a moça cantando no BBB? Eles não acham Gaby amarantos e Pedro Bial uma associação óbvia e natural? Má rapá, a coisa é pior do que eu pensava. Achei que as pessoas que não gostam de Gaby não tolerassem ingestão de fezes. Pelo menos dê exemplo, criticozinho de bosta.

Em busca do tempo perdido: shaw we dance?

Na rádio da Cultura de SP tive contato com um pedacinho de ‘Em busca do tempo perdido’, de Marcel Proust. São sete volumes, mas o fato d’eu nunca ter nem cheirado um deles faz de mim um rematado analfabeto.

Mas naquele programa, pra minha surpresa, a convidada Olgária Matos lembrou de um personagem do livro que morre na guerra pela França. Só que o cara caminhava pra morte pensando numa música-tema do país rival. Na verdade, o personagem morria transido pela Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner, um gênio alemão que acreditava em empulhações como ‘Raça Ariana’.

Pra mim ficou evidente a associação entre a passagem do Proust e a cena clássica dos helicópteros bombardeando o Vietnã, em Apocalipse Now, quando o piloto pede pro fuzileiro ligar o som antes do bombardeio começar.
– “Make it Loud. This is a Romeo Foxtrot… Shall we dance?”

Mas é claro que não poderia faltar a crítica aos Estados Unidos. Como a convidada era muito frankfurtiana, não desperdiçou a chance de relativizar a construção de Coppola como um sintoma oposto à cultura francesa: enquanto Proust descrevera a entrega do homem para a destruição, Coppola fizera uma cena do americanismo que não conhece derrotas – que mesmo tendo sido “derrotado” pelo Vietnã, não sofreu profundas retaliações no cômpito geral de seu poder.

Felizmente o radialista, não contente com o papel de ouvinte bunda-mole, nos livrou da velha ladainha anti-americana. Bem espirituoso, conseguiu rebater no sentido de que ao processo de qualquer guerra está imanente o sentido da destruição. Quer dizer, a mensagem destrutiva é um componente trágico praticamente impossível de não ser lembrado na Cavalgada das Valquírias, e isso está para além de qualquer construção interpretativa, independente da “torcida” que se tome como referencial.

Pra reforçar a ideia, ele ainda trouxe trechos de uma fala de altíssimo impacto do próprio Coppola:

“Apocalypse Now não é um filme sobre o Vietnã, ele é o Vietnã. E a maneira como o realizamos parece a maneira como foi no Vietnã: tínhamos gente demais, material demais, dinheiro demais e, aos poucos, enlouquecemos.” – que se seguiu, “que uma cultura possa mentir sobre o que se passa em tempos de guerra, que seres humanos possam ser brutalizados, mutilados e assassinados – e que tudo isso seja apresentado como moral, é isso o que me horroriza.”

Foto da minha primeira viagem (revelou a minha enorme vaidade)

Talvez eu esteja cometendo o maior erro da minha vida, talvez eu esteja estragando tudo, mas não consigo mais viver com esse segredo… foda-se, vou contar: eu tenho a manha de viajar no tempo.

Parece palhaçada, é… mas por isso algumas pessoas tem me achado esquisitão de uns tempos pra cá. Quem me conhece tem notado. Essa foto aí eu mesmo deixei como pista na minha casa ano retrasado, quando voltei pra Belém depois de um tempo morando fora.

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De vez em quando eu volto pra dar umas pistas pra mim mesmo, aí então tudo volta como lembrança de uma coisa estranha – que parece que eu nunca vivi, entende? Um sonho alheio, um delírio patético em que se descobre num corpo que não lhe pertence. Nessa vez voltei pra essa linha que cá estamos. É complicado mesmo entender… eu mesmo tive dificuldades pra assimilar o golpe,  tive efeitos de insônia em noites de sonhos lúcidos, brigas hediondas em hospitais de reprodução humana, em manicômios. Talvez até este post mesmo gere um grande mal-estar na Interzone Co. – que sob a fachada de uma dedetizadora de subúrbio, em Chinatown, NY. Talvez eles mudem toda essa linha, ou a apaguem…

…ah, mas ela é linda, não é? Não paro de olhar. Foi minha primeira viagem… claro que eu não resisti: ganhei na sena e me mandei pro Hotel Overlook. Não enlouqueci que nem o Jack Bobão. Fiquei por lá uns dois anos terminando de passar Sheila Use & Abuse pro inglês – o que não deixa de ser uma maluquice. Mas essa época ainda era tempo de literatura. Cinema e televisão não disputavam sozinhos entre si a hegemônia das distrações. No lugar disso, muita gente comprava, trocava e alugava livros como quem vai à fox vídeo, era a coisa mais trivial – “vê se não vai esquecer de devolver a porra do Tolstói… livro de otário“.

 “Refiz” cópias da Sheila no Brasil em março de 1920 – só puxando da memória – e foi um sucesso catastrófico. Em 21 eu já estava nos EUA pra tentar emplacar uma versão em inglês. Uma pena que nessa época meu amigo Ernst já tinha embarcado pra Paris e não pode comparecer à festa que eu dei no Overlook. Mas ali do lado direito é possível identificar Daniel Jacob, outro que fez nome na grande arte, passando um lero na minha great-grand-mother. Daniel quis voltar, eu fiquei pra ver a merda.

Bons tempos… as pessoas nos achavam visionários loucos que escreviam ficção científica, quando de fato o que (pelo menos eu) fazia, era simplesmente vomitar a minha realidade. Tão maluca, a realidade, que às vezes até eu me deixava enganar, achava mesmo que era um autor criativo – e curtia a devida babação de ovo sem o menor constrangimento.

– Ah, eu sou uma besta…

Nem voltando nem indo no tempo-espaço as pessoas deixam de me achar um estranho. Na foto é possível ver meu editor, David Lindelof, acompanhado de uma bêbada que enchia meu saco pra dar uma viajada de ácido – única coisa que eu, arrependidamente, levei do futuro no bolso da calça. Foi uma viagem mesmo. Quase minha reputação vai inteira pro lixo.

Chegou uma época que os ‘nóia’ não me deixavam mais em paz.

Queriam tudo a meu respeito: amizade, livros, adivinhações e, claro, gotas de liberdade. Enfim, fui sendo tratado mais e mais como uma espécie de guru da juventude da época.

A coisa foi ganhando proporção até começarem a dizer que o fato do personagem principal de Sheila, um mero jornalista policial, poder conversar com colegas de trabalho por telepatia (usando máquinas de escrever) – e, no exercício do seu metié, enfiar pirocas de madeira no cu de condenados – só poderia ser coisa da cabeça de um completo “mentecapto”. Ameaçaram audiência pública, quiseram me internar.

No fim das contas, a Sociedade Mães para a América influenciou um séquito de religiosos, fui acusado de perversão social e a Sheila, coitada, que não tinha nada a ver com as minhas vaidades idiotas, foi parar numa espécie de codex de protestante.

Enfim, logo depois o cinema tomou conta do que eram os primórdios do “show business” e eu terminei de salvar a minha pele passando a ideia de patentear a fórmula da “gota” e deixar os louros (ou não) com um residente de medicina, que pegou pesado na viagem e escreveu ‘Portas da Percepção’.

Ah, no dia dessa festa foi outra esquisitice. Tinha voltado praticamente arrebentado de uma tarde inteira perdido no labirinto do jardim. Era julho, tava um calor dos infernos, minha pele queimou, eu estava axausto. Dormi demais e acabei tendo que me arrumar às pressas. Quando Lloyd bateu no meu quarto, os convidados já me esperavam havia quase duas horas. De tão longe, eles tinham vindo. Que merda. Definitivamente o atraso injustificável do bonitão aqui estava sendo devidamente interpretado como insulto. Enquanto eu me arrumava, desajeitado, tive que ceder à ideia de pagar quartos para todos que estivessem “cansados” pra pegar a estrada de volta – o que já era uma coisa previsível. Mas depois veio a porra da barba – e aí, como de costume, tentei lançar moda… mas dessa vez não colou, só fez aumentar a fama de “excêntrico”. Nessa época não tinha jeito, as mulheres simplesmente odiavam homem com barba por fazer, elas achavam um look muito “prisioneiro”.Image