Em busca do tempo perdido: shaw we dance?

Na rádio da Cultura de SP tive contato com um pedacinho de ‘Em busca do tempo perdido’, de Marcel Proust. São sete volumes, mas o fato d’eu nunca ter nem cheirado um deles faz de mim um rematado analfabeto.

Mas naquele programa, pra minha surpresa, a convidada Olgária Matos lembrou de um personagem do livro que morre na guerra pela França. Só que o cara caminhava pra morte pensando numa música-tema do país rival. Na verdade, o personagem morria transido pela Cavalgada das Valquírias, de Richard Wagner, um gênio alemão que acreditava em empulhações como ‘Raça Ariana’.

Pra mim ficou evidente a associação entre a passagem do Proust e a cena clássica dos helicópteros bombardeando o Vietnã, em Apocalipse Now, quando o piloto pede pro fuzileiro ligar o som antes do bombardeio começar.
– “Make it Loud. This is a Romeo Foxtrot… Shall we dance?”

Mas é claro que não poderia faltar a crítica aos Estados Unidos. Como a convidada era muito frankfurtiana, não desperdiçou a chance de relativizar a construção de Coppola como um sintoma oposto à cultura francesa: enquanto Proust descrevera a entrega do homem para a destruição, Coppola fizera uma cena do americanismo que não conhece derrotas – que mesmo tendo sido “derrotado” pelo Vietnã, não sofreu profundas retaliações no cômpito geral de seu poder.

Felizmente o radialista, não contente com o papel de ouvinte bunda-mole, nos livrou da velha ladainha anti-americana. Bem espirituoso, conseguiu rebater no sentido de que ao processo de qualquer guerra está imanente o sentido da destruição. Quer dizer, a mensagem destrutiva é um componente trágico praticamente impossível de não ser lembrado na Cavalgada das Valquírias, e isso está para além de qualquer construção interpretativa, independente da “torcida” que se tome como referencial.

Pra reforçar a ideia, ele ainda trouxe trechos de uma fala de altíssimo impacto do próprio Coppola:

“Apocalypse Now não é um filme sobre o Vietnã, ele é o Vietnã. E a maneira como o realizamos parece a maneira como foi no Vietnã: tínhamos gente demais, material demais, dinheiro demais e, aos poucos, enlouquecemos.” – que se seguiu, “que uma cultura possa mentir sobre o que se passa em tempos de guerra, que seres humanos possam ser brutalizados, mutilados e assassinados – e que tudo isso seja apresentado como moral, é isso o que me horroriza.”

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