Foto da minha primeira viagem (revelou a minha enorme vaidade)

Talvez eu esteja cometendo o maior erro da minha vida, talvez eu esteja estragando tudo, mas não consigo mais viver com esse segredo… foda-se, vou contar: eu tenho a manha de viajar no tempo.

Parece palhaçada, é… mas por isso algumas pessoas tem me achado esquisitão de uns tempos pra cá. Quem me conhece tem notado. Essa foto aí eu mesmo deixei como pista na minha casa ano retrasado, quando voltei pra Belém depois de um tempo morando fora.

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De vez em quando eu volto pra dar umas pistas pra mim mesmo, aí então tudo volta como lembrança de uma coisa estranha – que parece que eu nunca vivi, entende? Um sonho alheio, um delírio patético em que se descobre num corpo que não lhe pertence. Nessa vez voltei pra essa linha que cá estamos. É complicado mesmo entender… eu mesmo tive dificuldades pra assimilar o golpe,  tive efeitos de insônia em noites de sonhos lúcidos, brigas hediondas em hospitais de reprodução humana, em manicômios. Talvez até este post mesmo gere um grande mal-estar na Interzone Co. – que sob a fachada de uma dedetizadora de subúrbio, em Chinatown, NY. Talvez eles mudem toda essa linha, ou a apaguem…

…ah, mas ela é linda, não é? Não paro de olhar. Foi minha primeira viagem… claro que eu não resisti: ganhei na sena e me mandei pro Hotel Overlook. Não enlouqueci que nem o Jack Bobão. Fiquei por lá uns dois anos terminando de passar Sheila Use & Abuse pro inglês – o que não deixa de ser uma maluquice. Mas essa época ainda era tempo de literatura. Cinema e televisão não disputavam sozinhos entre si a hegemônia das distrações. No lugar disso, muita gente comprava, trocava e alugava livros como quem vai à fox vídeo, era a coisa mais trivial – “vê se não vai esquecer de devolver a porra do Tolstói… livro de otário“.

 “Refiz” cópias da Sheila no Brasil em março de 1920 – só puxando da memória – e foi um sucesso catastrófico. Em 21 eu já estava nos EUA pra tentar emplacar uma versão em inglês. Uma pena que nessa época meu amigo Ernst já tinha embarcado pra Paris e não pode comparecer à festa que eu dei no Overlook. Mas ali do lado direito é possível identificar Daniel Jacob, outro que fez nome na grande arte, passando um lero na minha great-grand-mother. Daniel quis voltar, eu fiquei pra ver a merda.

Bons tempos… as pessoas nos achavam visionários loucos que escreviam ficção científica, quando de fato o que (pelo menos eu) fazia, era simplesmente vomitar a minha realidade. Tão maluca, a realidade, que às vezes até eu me deixava enganar, achava mesmo que era um autor criativo – e curtia a devida babação de ovo sem o menor constrangimento.

– Ah, eu sou uma besta…

Nem voltando nem indo no tempo-espaço as pessoas deixam de me achar um estranho. Na foto é possível ver meu editor, David Lindelof, acompanhado de uma bêbada que enchia meu saco pra dar uma viajada de ácido – única coisa que eu, arrependidamente, levei do futuro no bolso da calça. Foi uma viagem mesmo. Quase minha reputação vai inteira pro lixo.

Chegou uma época que os ‘nóia’ não me deixavam mais em paz.

Queriam tudo a meu respeito: amizade, livros, adivinhações e, claro, gotas de liberdade. Enfim, fui sendo tratado mais e mais como uma espécie de guru da juventude da época.

A coisa foi ganhando proporção até começarem a dizer que o fato do personagem principal de Sheila, um mero jornalista policial, poder conversar com colegas de trabalho por telepatia (usando máquinas de escrever) – e, no exercício do seu metié, enfiar pirocas de madeira no cu de condenados – só poderia ser coisa da cabeça de um completo “mentecapto”. Ameaçaram audiência pública, quiseram me internar.

No fim das contas, a Sociedade Mães para a América influenciou um séquito de religiosos, fui acusado de perversão social e a Sheila, coitada, que não tinha nada a ver com as minhas vaidades idiotas, foi parar numa espécie de codex de protestante.

Enfim, logo depois o cinema tomou conta do que eram os primórdios do “show business” e eu terminei de salvar a minha pele passando a ideia de patentear a fórmula da “gota” e deixar os louros (ou não) com um residente de medicina, que pegou pesado na viagem e escreveu ‘Portas da Percepção’.

Ah, no dia dessa festa foi outra esquisitice. Tinha voltado praticamente arrebentado de uma tarde inteira perdido no labirinto do jardim. Era julho, tava um calor dos infernos, minha pele queimou, eu estava axausto. Dormi demais e acabei tendo que me arrumar às pressas. Quando Lloyd bateu no meu quarto, os convidados já me esperavam havia quase duas horas. De tão longe, eles tinham vindo. Que merda. Definitivamente o atraso injustificável do bonitão aqui estava sendo devidamente interpretado como insulto. Enquanto eu me arrumava, desajeitado, tive que ceder à ideia de pagar quartos para todos que estivessem “cansados” pra pegar a estrada de volta – o que já era uma coisa previsível. Mas depois veio a porra da barba – e aí, como de costume, tentei lançar moda… mas dessa vez não colou, só fez aumentar a fama de “excêntrico”. Nessa época não tinha jeito, as mulheres simplesmente odiavam homem com barba por fazer, elas achavam um look muito “prisioneiro”.Image

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