Tô ficando velho, companheiro (Síria, pt. III)

Além de uma semana correndo atrás de um prejuízo acadêmico que não vale nem a pena comentar, fui seguidamente assaltado por diretas e indiretas no queixo que, em resumo, queriam dizer a mesma coisa: “para de escrever sobre a Síria”, “continua falando de BBB”, “por que se mete?, o assunto não é contigo, tu é só um estudante de merda, deixa isso com o Jabor”.

Preciso dizer que, antes mesmo de assimilar os golpes, eu já me obrigava a reagir. Em primeiro lugar porque depois de tantos anos assistindo e estudando “as media”, é impossível continuar comprando ideia no atacado. A única coisa que ainda lembro do meu primeiro dia de aula na faculdade – além de uma menina que apareceu toda molhada – foi “você nunca mais vai ler um jornal como lia até aqui”. E essa foi a última vez que escutei um jornalista sem desconfiar de nada.

Em segundo lugar, se vocês repararem bem nesses posts da Síria, eu ando seguidamente me negando às acepções gartuitas. De modo que eu tento, na medida do possível, trabalhar com fatos – de preferência fatos que não saíram da boca do Arnaldo Jabor. Quando emito uma opinião sobre um assunto dessa gravidade, procuro me respaldar em alguém cujos argumentos não consegui derrubar (e a partir daí vocês tirem suas conclusões e me refutem, se for o caso) ou então são resultados retirados de uma síntese de lógica simples… 2 – 1 = 1, há fumaça à esquerda e à direita, o jeito é a gente cair fora, esse tipo de coisa.

E terceiro, mas não menos importante, é evidente que o assunto do Oriente tem a ver comigo. É possível passar uma vida inteira falando de consequências de decisões globais que afetam a realidade dos fatos até na hora de se ajoelhar na Igreja, ora.

Também devo confessar: a coisa que mais me excitou neste assunto é a quantidade de gente comprando opinião sobre conflitos no Oriente Médio com base NO NADA – em folhetos, em folders partidários, em montagens de feicebuqui! Além, é claro, dessa propaganda midiática em voga pra derrubar o Bashar al-Assad, vi muita gente postando mensagens anti-Israel e, como a maioria era jornalista, naturalmente comecei a me perguntar “POR QUÊ?” – não foi essa a primeira lição?

Das pessoas que eu vi postando esse tipo de coisa, todas, sem nenhuma exceção, eram esquerdistas – de todos os arrebites, mas todos esquerdistas: veganos, anarquistas, socialistas, praticantes de várias modalidades de comunismo.

Conjecturei, então, que os movimentos sociais de esquerda têm relação direta com essas mensagens. Alguém no comando emite determinadas opiniões que são devidamente reproduzidas por seus sectários – e essas paradas chegam até mim sob forma de propaganda ideológica. Veja bem: todo segmento tem sua intenção determinada, é claro. Mas, em comum, tá essa nova moda de ser anti-Israel e pró-Primavera Árabe. Quer dizer, este é um objeto claramente distinto dos demais, um discurso que não deve tá aí por coincidência, certamente fruto de um estudo sério que tem produzido símbolos pra justificar uma nova descrição do estado de coisas – e que espera uma conduta orientada de quem o vê. Em suma: a boa e velha propaganda.

– Essas mensagens são boas?, são ruins? – não sabia, então comecei a verificar.

Na ‘parte 1’ desse post prometi dizer os impactos dessas coisas na realidade e como diabos isso foi parar na Síria. Bom, en passant citei alguns casos onde o sistema econômico global passou o rodo sem escrúpulos em alguns países. Vimos isso muito claro na Líbia.

A Líbia tinha um contrato de comércio de petróleo com a Itália em função de uma dominação existente desde a 2ª Guerra. Com o novo desenho econômico mundial, começou-se a plantar aquelas velhas notícias alarmistas que se agigantaram na mídia internacional até o ponto que aqueles símbolos de desrespeito à democracia “obrigaram” a ONU a tomar uma atitude. Foram emitidas uma série de comunicados e, na sequência lógica, a ONU autorizou levantarem aviões pra bombardear a Líbia e desestabilizar o sistema de Muanmar Kadhafi. Até o Brasil foi se meter na história.

Plantado o caos, um grupo minoritário se encarregaria de destituir Kadhafi. No fim das contas, tudo pareceu muito bonitinho e verossímil. O Obama estava lá, apertando a mão de um beduíno. Entretanto, mesmo depois de toda a revolução, as últimas eleições na Líbia tiveram fraquíssima adesão: http://www.swissinfo.ch/por/politica_suica/Divisoes_ameacam_eleicoes_na_Libia.html?cid=33043238.

E obviamente, o petróleo que iria para os antigos países contratados, não vai mais: a Itália ficou de mãos atadas pedindo dinheiro emprestado de quem a roubou.

Enfim, no todo, foi-se um déspota, vem outro, muito provavelmente. E você pode conseguir refutar absolutamente tudo o que eu disse até aqui, mas uma coisa tá difícil negar: ditadura por ditadura, a África tá até o talo; e a ONU não foi lá “implantar democracia” por uma única e singela razão: não tem petróleo.

Depois de matarem o cavanhacudo, esses agentes econômicos globalistas se preocuparam em enquadrar o Irã. Motivo: “estamos preocupados com a falta de democracia”. ê tio, dá um tempo. Acima de qualquer coisa, o Irã tem um sistema energético nuclear dos mais avançados já feitos. Se o sistema energético iraniano fosse implementado no mundo, todas, TODAS as empresas de energia faliriam do dia pra noite. O Irã é uma fonte de inveja. http://www.dw.de/ir%C3%A3-acusa-siemens-de-sabotar-programa-nuclear-do-pa%C3%ADs/a-16259968

Então eles agiram no mesminho modus operandis: começaram a plantar essa ideia dos estudos nucleares, disseram que o Irã programava ataques a Israel, etc, etc…

Dezenas de cientistas iranianos relacionados à questão energética começaram a desaparecer que nem moscas. A coisa só quietou quando a marinha iraniana colocou seus navios no Estreito de Ormuz (um gargalo estratégico por onde circula mais da metade do comércio de petróleo do mundo) e ameaçou: “aqui nessa porra não passa mais uma gota de petróleo”. Especula-se que uma subvenção dos russos foi crucial pra desestimular qualquer reação da ONU, e então o Obama também ficou na dele.

Bem, pelo menos o Irã está temporariamente livre da ameaça global.

Mas logo, logo inventaram um novo inimigo: a Síria, do Assad. Conforme o noticiário que eu ouvi de passagem pela sala, a Síria é comandada por um “ditador” – veja só onde a ideia já chegou. Bem, é claro que isso é um fato, mas que esconde mais uma ladainha. A família Assad realmente tem o poder na Síria há muito tempo, o pai dele era governante também. Só que, pesquisando um mínimo sobre esse país você vê que no próprio parlamento deles existem, pasmem, representante do cristianismo! O ministro da educação dos caras é cristão. O premiê era sunita! (e foi o primeiro a cair fora quando começaram as “revoltas”) Que raio de ditador perigoso é esse? Um cosmopolita que vai fazer frente ao projeto global?

Pelo amor de Deus, Assad tem relaçoes amistosas com seus países vizinhos.

A Síria é um dos países mais desenvolvidos do Oriente Médio, tem uma elite bem instruída. Diferente de alguns países europeus, lá pelo menos todo mundo tem dinheiro pra pagar a conta de luz, ninguém precisou vender a geladeira.

Então qual a razão de ser a Síria? Mais uma vez, ENERGIA. A Síria detém um gasoduto enorme, uma parte crucial do controle sobre o metano, o próximo combustível na fila pra entrar na moda. http://www.voltairenet.org/article176218.html

A Síria é a última fronteira. Não à toa que os jornais europeus reportaram navios chineses e russos atracando por ali pra defender as investidas da OTAN.

A coisa é braba: aparece EUA, UE e uma aliança russo-chinesa disputando o resto mundo.

Quando você vai procurar por trás dos panos quais as regras do jogo, você depara com aberrações circulando na obviedade: Israel x Palestina, como estados, dependem da legitimidade da ONU. E quem diabos é ONU? A ONU é quem dita o jogo no oriente petroleiro e não pode ser julgada por ninguém. Quem vai julgar a ONU? Você já viu alguém julgar o Tribunal Penal Internacional? O mais incrível é saber que os únicos que ainda podem fazer isso são os EUA.

Eu sei como é difícil sair de uma situação relativamente cômoda, como é doloroso desacreditar de coisas que sempre pareceram tão confortavelmente congruentes. Aliás, eu mesmo tô vivendo esse processo e, honestamente, poucas vezes me senti tão sozinho – mas tão livre.

O fato de estar sendo lançado de um total estado de ignorância me fez ressuscitar aquela velha lição, a mesma do primeiro dia de aula, que me volta agora com força de conceito: NÃO VOU COMPRAR IDEIAS SEM DESCONFIAR DELAS. É isso, simples assim. Não dá pra se jogar na conversa de que a juventude tem que tomar um partido agora, que eu preciso de um iPhone, que o Paulo Freire vai se remexer no túmulo se eu não der a bunda pro Stédile, que os estudantes bebem, os professores fumam. Isso é pura balela, mixórdia conceitual. A juventude é massa de manobra chave pra todo e qualquer projeto de poder. E eu, de olhos fechados, compro um projeto de vida feito por um propagandista do ramo de petróleo?… Ou peco pelo medo de ficar sozinho com as minhas convicções? Pro inferno! Essas horas nem preciso lembrar quando eu nasci pra me dar conta que eu já tô é velho pra cair nessa.

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