Indigestivo cultural

Curioso como a tal crítica especializada trata o escritor Marcelo Mirisola. O cara dá uma entrevista falando um quilo de verdade numa retórica cheia do estilo [pra quem curte: “nosso tempo não é o da literatura”; “big brother é um Dostoiévski sem cérebro”, chupa essa manga, Peter Funny] – e, mesmo assim, ao final da matéria, é classificado como maluco: “Mirisola daria um ótimo caso para um psicólogo, não para a literatura”.

Tudo bem uma pessoa não gostar daquilo (tem gente que lê Augusto Cury) mas de uma crítica especializada eu esperava uma justificativa minimamente técnica sobre forma, sobre conteúdo. Mas não, o entendido apela pro lado pessoal do escritor com intuito claro de diminuí-lo.

Depois de cotejaram sofregamente criador com criatura, a razão que eles encontraram pra rebaixar a literatura do Mirisola é qualquer coisa senão patética. Atacam o cara porque a “voz” dele nos livros é a mesma de um sujeito que “não come ninguém”, a mesma voz que uns “leitores” logo depois dizem conhecer intimamente. Quer dizer, confundem a tal persona literária com a pessoa (como se nós, meros transeuntes, tivéssemos obrigação de conhecê-lo) e ainda aproveitam pra achincalhá-lo, fazer dele um coitado, um perdedor que, devido suas frustrações sexuais e sede de fama, soa inconvenientemente ressentido para os ouvidinhos dos jornalistas. Pelo amor de Deus! O Brasil é mesmo o país dos idiotas. Não à toa o Vilem Flüsser saiu da USP com a mão na frente e a outra atrás.

Se por aqui pintasse um Schopenhauer (famoso por “não comer ninguém”), o bundão do Julio Daio Borges recomendaria o desprezo a Dores do mundo. Quer dizer, a “intelectualidade” brasileira ficou incapaz de lidar com a sinceridade. O brasileiro não admite mais o convívio com a franqueza, e, nesse cenário, se você possuir alguma virtude espiritual, é melhor sair pedindo desculpa pra não ser tachado de idiota, de pretensioso. É muita, mas muita mesquinhez. Tentar falar verdade no Brasil redunda em ter que se desculpar na sequência, ou morrer atropelado por essas panelinhas de gente falsa e cheia de si. Vocês não sentem? Tem algo de podre nesse país – e eu aposto minha vida se essa podridão não passa pela vaidade e por uma sucessão histórica de mentiras.

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