Pílula vermelha ou azul? – um questionamento idiota

Em primeiro lugar é preciso dizer que entrar numa discussão idiota é tão idiota quanto criar a questão… ou até mais, dependendo do resultado. E o resultado pode ser a triste continuidade do pensamento idiota até um ponto que ele ganhe ares de prática. Enfim, essa questão (que me fizeram depois de assistir Matrix) por muito tempo me perturbou – simplesmente porque eu dei mole, deixei o questionamento invadir minhas reflexões e ignorei minha própria intuição ao assumir como premissa que o abstrato pode ser real.

Uma premissa que, como foi colocada, não admitia refutação.

Quero dizer: quando a questão surgiu foi assumido de antemão que o abstrato pode ser real – e eu, pateticamente, me conformei com aquilo. Como se eu tivesse ficado temporariamente maluco.

Mas vamos a ela, eis a tal da questão:

– “Pílula azul ou pílula vermelha? Você preferiria um mundo inventado por outro homem, onde você tem emprego e come filé; ou essa realidade, que está em franca decomposição?”

Um amigo respondeu que ficaria no mundo da abstração do outro, que tem filé; eu escolhi a “pílula vermelha”, a realidade, me justificando simplesmente pelo fato de odiar a falsidade.

O amigo rebateu minha opção com o argumento de que se aquilo está na minha cabeça, e é o meu “mundo conhecido”, então aquilo também é realidade. E foi aí que eu dei mole e não consegui mais argumentar, a não ser julgando meu interlocutor como um hedonista dos mais insanos, dono de um apetite absurdamente fatal.

Incrível como tanto tempo depois aquela dúvida ainda me perturbava – “porra, se eu conheço uma coisa e só essa coisa, isso é a realidade?”; e outras, ainda mais urgentes, “como ser mais forte que o simples prazer? Por que é tão fácil ser hedonista? Por que a verdade é tão dolorosa?”

Pra piorar minha situação, li uma fábula chinesa sobre um sujeito que, encantado com um sonho onde ele era uma borboleta, não sabia mais distinguir se a borboleta era mesmo um mero sonho, ou se ele, homem, é que era o sonho da borboleta – Matrix puro, pensei.

A boa justificativa para se “optar” pelo real sem sequer cogitar outra possibilidade é uma só: o exercício livre da consciência.

Eu não posso agir criativamente se o meu pensamento está preso num lugar imaginado por outra pessoa. E Matrix não chega a ser nem isso. Matrix é um simulacro da realidade onde, ficcionalmente, os próprios fenômenos acidentais só podem se relacionar dentro de um programa baseado na realidade, e essa realidade é um recorte do próprio conhecimento humano, no sentido histórico. Quer dizer, um programa que nem Matrix não admite acidentes –  tudo o que tem ali, vem da própria história que efetivamente ocorreu, caso contrário a Matrix seria o absurdo – e vemos no filme que não é assim. Tipo isso: o filé que os caras comem lá, mal passado, é uma invenção gastronômica que não veio da Matrix, veio da realidade histórica, ora. Alguém viu aquilo e emulou ali – e é só.

O programa da Matrix é só outra invenção. A Matrix mesmo é uma circunstância acidental dentro das muitas circunstâncias acidentais que formam a realidade. E a realidade é exatamente isso: um conjunto de acidentes em trama.  Pra exercer algum controle sobre essas circunstâncias é preciso que o sujeito, por iniciativa própria, apreenda na sua imaginação um dado retido na realidade e interaja com aquilo usando seu corpo e seu intelecto.

– Agora como é que um cara vai fazer isso se ele não está nem na realidade, porra?

Sonho lúcido? Num sonho lúcido alheio? Ah, pelo amor de Deus!

Não à toa que todo e qualquer filme onde há o tema “rebelião de robôs”, o fim é necessariamente apocalíptico. Um robô não tem vontade própria, robôs não interagem criativamente com a realidade, logo não são capazes de conservar ou transformar um estado de coisas – então tudo naturalmente se acaba.

Mas se a ficção admite que o robô tem desejos, fala e pensa como um humano, então não estamos mais falando de um robô, e sim de uma nova espécie de homem. Talvez estejamos falando da Dilma Rousseff. Nesse caso, o objeto deixou de ser objeto, ganhou status de um ser que admite ser objeto e sujeito, embora artificial – o que é totalmente diferente, além de absurdo. No fundo, não tenho a menor expectativa de que isso venha a ocorrer. É impossível um computador tomar decisões “criativas” sem base em probabilidades que não foram previamente incutidas na memória dele. Ao passo que o primeiro sopro de vida de um homem já é forçosamente intuitivo – a intuição de uma coisa chamada ar. Quer dizer, a memória de um robô é um sistema totalmente dependente do homem. Isso elimina de um robô a chance do livre arbítrio, ele é uma coisa condicionada que vai ficar obsoleta no fenômeno social seguinte. Se disser a um robô que o novo presidente da república é a reencarnação de Jesus, ele vai dizer o quê? Que isso é um tesão? Que reencarnação não existe? Que tem alguém mentindo? Como ele julgaria esse dado entre bom e mal? Obviamente, com base nas opções que algum humano propôs pra ele falar. Senão vai ficar mudo. Além do mais, como uma coisa artificial vai fruir o horror da morte? – que, especula-se, é o grande impulso da criatividade humana.

De todo modo, é muito bom exercitar a imaginação com essas impossibilidades. Quero acreditar que foi esse grande prazer que influenciou meu amigo a achar que tomaria a mesma decisão do vilão tosco; que na hora em que discutíamos aquilo, nem ele e nem eu atentamos pro óbvio: o abstrato não é real. Pelo simples fato de que o abstrato não admite acidentes, sendo ele mesmo outro acidente. O abstrato é só um pensamento humano, um jogo, e é impossível viver dentro de um recorte. Não posso, nem quero crer que outras pessoas seriam tão burras quanto aquele vilão idiota. Um sociopata que, ao ser questionado como fomos, escolheu se submeter a um robô. Talvez o traidor mais patético da história do cinema. É como se alguém, reconhecidamente cruel, chegasse com você com a seguinte proposta: “e aí, malandro, deixa eu ser teu Deus? Acima de mim tem um deus, que essencialmente é igual a você, e que foi o cara que criou o meu programa; só que acima desse cara, tem outro Deus também, o construtor da realidade e suas vicissitudes. Bom, sabendo disso, você aceita se subjugar a mim? Aceita ser servo numa hierarquia onde eu sou apenas um deus de terceira categoria, ciente de que o meu objetivo é exterminar toda essa sua raça imunda? Hein? Garanto o filé.”

– PUTA QUE O PARIU, MALUCO – é muita burrice! É lógico que o cara morreu segundos depois de decidir fazer uma imbecilidade daquelas com a própria vida. Mesmo se ele sobrevivesse, é como se tivesse dado um tiro na consciência. O cara foi comprado por um filé com fritas metafísico! Isso basta pra classificar Matrix como um filme extremamente infantil, um filme de kung-fu com confusas pretensões filosóficas. E todas essas pretensões são categoricamente ignoradas quando a história se utiliza do expediente de um traidor tão, mas tão burro.

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One comment on “Pílula vermelha ou azul? – um questionamento idiota

  1. mediciland says:

    Um suplemento para a degustação desse texto. Ghost in the Shell 1 e 2.

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