DJANGO: mais do mesmo

Devo concordar, apesar da hipérbole, que cinema é mesmo “a maior diversão”. É preciso o filme ser muito ruim pro cara levantar e pedir o dinheiro de volta.

– Às vezes é o sujeito quem tá podre, não o filme.

Em Django, quase nenhuma vez passou pela minha cabeça sair da sala. Em resumo: vale o vintão da entrada, dá pra se divertir. Só não passa muito disso.

Quem salvou a sessão mesmo foram os sobressaltos dramáticos daquele elenco poderoso. É claro que o diretor e a equipe têm uma parcela de responsabilidade nisso, mas o que pretendo dizer é que eu entrei no cinema prevendo uma boa introdução à arte de conduzir um fim de semana meia bomba – e nada além disso. E, conforme o prognóstico, nada mais aconteceu mesmo. Na saída, o falatório só não era maior que a fila pra sessão seguinte.

– E aí, o que tu achaste? Tu sempre opina sobre tudo.

Não, ultimamente não tenho mais me dado ao trabalho de defender minhas opiniões na rua, ando por aí unicamente com o intuito de me salvar do tédio – e o filme já tinha dado conta disso numa margem de 50%.

Pra esse comportamento apático concorre o fato d’eu ter assistido da primeira fileira, ter saído com sintomas de torcicolo, e ainda ter visto Pulp Fiction poucos dias antes.

Apesar de considerar Kill Bill uma das coisas mais divertidas que já vi no cinema, aposto o que vocês quiserem como nunca mais – nunca mais – Quentin Tarantino vai conseguir repetir a verve diabólica dos textos de Pulp Fiction.

Há mais ou menos 15 anos, quando vi aquilo pela primeira vez, não entendi bulhufas. Ainda era incapaz de compreender a sutileza de um deboche tão violento sobre a vida como ela é. Aliás, naquele tempo de pureza & inocência pré-onanismo, eu não era capaz de entender as razões de um sujeito que numa hora discorre sobre hambúrguer, no minuto seguinte cita uma passagem da Bíblia e, na conclusão do ato, abre uma cratera no estômago de alguém com um tiro.

Eu gostava era do Rambo que, num intervalo pro outro do Domingo Maior, fazia uma contagem de vítimas dez vezes maior que a que o Chris Kyle fez na vida inteira. Mas o Rambo não era gente, por assim dizer, ele era uma entidade sórdida que transcendia a figura do mercenário e se transmutava em justificativa & contabilidade de um exército inteiro, quiçá de uma pátria inteira.

E aquela loucurinha de apartamento que eu não consegui decifrar em Pulp – aquele terror insólito, sufocante, indefeso – era o mesmo que se tornaria meu karma dali pra frente – o mesmo que me encapuzaria, foderia minha namorada na minha frente, levaria meu celular de conta e me obrigaria a escrever Sheila Use & Abuse, 15 anos depois. Pulp Fiction era o meu medo de sair na rua e dar de cara com a absurdidade sem causa de uma vidinha pós-moderna, cujo sarro Quentin Tarantino soube tirar como ninguém.

Agora eu posso entendê-lo – ele se viciou na parada! No sarro! Mas à medida em que ele se viciava (e ganhava muita grana com isso), a coisa foi se solidificando num esquema textual que muitos chamam de estilo. Vá lá que seja, mas nenhum recurso estilístico superou a Opus Magnum. E hoje em dia, talvez na falta de uma perspectiva mais inédita, ele usou do estilo que lhe é peculiar para trabalhar em cima de contextos históricos-étnicos bem delineados.

E ainda anda dizendo por aí que suas últimas investidas fazem parte de uma trilogia. Primeiro foi aquele do Hitler: chatíssimo, tosco. Agora veio o Django, melhor. Pronto!, eis a tal da opinião – que apesar de não contar pra mais de meia dúzia de gatos pingtados, serve pra dizer que, além de meia bomba, essa trilogia do Tarantino tá muito é boa praça. Ele já deu um afago nos judeus, foi de cafuné nos negros, amanhã aparece o Harvey Milk usando um pirocóptero como artefato militar – e, pra fechar a obra, vamos ter que aturar o herói sendo chupado por um general mulçumano vestido de Rogéria.

Nota sobre o maniqueísmo tresloucado com as pessoas brancas do filme: Todo branco que aparece ali sofre de demência mental congênita, ninguém escapou do açougue. Naquela época a revolta era mais que justificada, obviamente, mas não precisava ter coroado o patético com aquela morte chinfrim da irmã do Di Caprio. Acho que ele quis “homenagear” a verossimilhança de Mad Dog McCree ou passar mais um pito no infame Lazarus Morell. Em tempo: fiquei sabendo da existência de uma entrevista em que o próprio Jamie Foxx faz reverências a Obama como “Deus e Salvador nosso”; e que a diva do oportunismo, Madonna, deu “graças a Deus” pela América ter Obama como presidente. O alerta segue ligado.

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