Hegemonia cultural – ou, O Grande Truque

Esses neo-revolucionários são foda mesmo, hein? Às vezes a gente tem que tirar o chapéu, o trabalho dos caras é incessante. Acho que eles passam as 24 horas do dia que Deus dá elaborando maneiras de entronizar fatos sociais no movimento. Para isso eles se valem da ignorância ampla, geral e irrestrita que domina o Brasil e de alguns truquezinhos manjados.

Por exemplo, vi um panfleto virtual atribuindo o fim da escravidão e o voto feminino “à luta”. Veja que isto obedece a uma cronologia preliminar. Primeiro os negros foram libertados, depois as mulheres. Na sequencia lógica, lá está o movimento gay, lutando em prol do futuro da humanidade.

Só que os caras que libertaram os negros eram latifundiários cristãos. Já o voto feminino veio de mulheres ligadas ao Partido Trabalhista inglês que, apesar de se posicionar à esquerda do Partido Conservador, se assumiu thatcherista em 95 e não admite sequer ex-comunas em suas cadeiras. Aliás, as feministas do fim do século XIX se apoiavam em Locke, precursor do liberalismo econômico. Pra esse pessoal não tinha essa de Marx, não existia movimento, direitos constitucionais não viravam princípios universais.

Agora, o movimento gay, ele não tem nada a ver com gay, porra. Vocês tão servido de lacaios político-partidários. Por que vocês acham que existem não-gays no movimento gay? Por que vocês acham que esses caras odiavam o Clodovil?

– É porque eles menosprezam quem não está afeito ao partido. Gay, preto, japonês, tanto faz: quem não for do partido, pra eles, já tá errado. Os caras passam o dia inteiro falando do tal do Marcos Feliciano, mas não compartilharam uma vírgula da entrevista que ele diz que a mãe dele é negra, revela um tufo de cabelo pichaim, e diz que prefere alisado. Essas coisas não aparecem. Essa é a prática da boa e velha edição. Acho que tem alguém na MTV cujo ganha-pão é assistir cultos do Feliciano e editar a gosto do freguês. Agora eu duvido muito que não haja neste planeta um comunista que alise o cabelo.

Bem, e que tal partido é esse? É o mesmo de sempre, o nosso velho conhecido Partidão: as agremiações socialistas, ateus militantes, comunistas, enfim, marxistas em geral e seus cupinchas de todas as classes e arrebites. Vocês não viram o Zé de Abreu? Rico, artista global, comuna ferrenho. A celebridade que, hoje, melhor tipifica o bicho-grilo de baixo da linha do Equador. Zé é amigo íntimo do Grande Zé, o Dirceu. Na entrevista, fez o papel esperado pelo Aguinaldo Silva: encheu a boca pra falar mal do sistema enquanto se lambuzava num ossobuco de 84 reais. Foi qualificado na matéria como “pseudo-bissexual” – vai saber que diabo é isso. Enfim, é um esquerdóide ordinário e assumido, como ele mesmo diz, “um porra-loca” que se orgulha de ter sido um dos 700 que foram presos junto com o Zuenir em Ibiúna, e de ter apoiado a luta armada. Pois seu Zé deu com a língua nos dentes com um fato que eu já citava de passagem lá no meu TCC: a Globo tá cheia de comuna. Até onde eu pesquei, desde o Dias Gomes que a dramaturgia brasileira – em todos os níveis – vem sofrendo essa constante e implacável doutrinação.

Não sei se eu tô me fazendo entender… acho difícil, dado o número de reclamações que vem aumentando contra este blog e à minha pessoa. Mas, em resumo, é o seguinte: esse pessoal acha MESMO que quem não compactua com a ideologia deles é um mero apedeuta que deve ter sua história aviltada, seus pecados expostos em público e seu pensamento menosprezado.

Outro dia um maluco me acusou de ser um esquerdopata. Depois veio o discurso de que eu não tinha preparo pro novo mundo, que será mais heterogêneo e blablabla. Sem essa. O tal do Novo Mundo vai chegar, o pokemon coreano vai soltar o seu pikachu em Nova York e eu vou continuar fazendo parte da realidade: forte, impávido e colosso. Ou a ideia é emparedar quem não lhe agrada e estamos todos num jogo elaborado pelo Pedro Bial? Isso que eu chamo de heterogeneidade, hein? Diferente do Manual do Acadêmico Doutrinado, na faculdade eu tive saco pra encarar teóricos frankfurtianos e hoje nutro uma enorme admiração pelo Graciliano Ramos. Embora não concorde com as posições políticas que ele vai tomando ao narrar suas histórias, é impossível não admitir que o cabedal léxico de que ele lança mão é uma covardia, uma humilhação para qualquer um que se meta a escrever em português hoje – à esquerda ou à direita. Inversão de perspectivas inadmissível numa cabecinha solapada pela hegemonia cultural esquerdista, cuja bibliografia ignora até Ortega y Gasset.  Ah, a título de curiosidade, o livro de cabeceira do Graciliano (ateu assumido e comunista que figurava até nas Internacionais) era a Bíblia Sagrada.

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