Os Três Reis

– quanto vale 5 minutos na vida?          

Estava com meu gênio mau e minha mãe na câmara dele, do gênio. Parecia noite, mas uma noite prateada, iluminada por três luas: não era preciso ligar a luz.

Então eles deixaram a sala e pediram para que eu continuasse ali, só. Os dois tinham a mesma expressão sacana no rosto ao sair.

Antes que eu me insurgisse, ainda em pensamento, o gênio mau rispidamente disse que ali, sozinho, eu aprenderia uma grande lição, talvez a grande lição da minha vida – valia a pena ficar calado e manter o foco, eles não tardariam.

Deixaram-me. Fui vasculhar o computador dele, sem maiores intenções, só pra ter o que fazer. O sinal do modem parecia nulo. Então, naturalmente, fui até a janela olhar o que se passava lá fora. Fazia uma grande noite, com várias esferas no céu, que eu pensei serem luas.

Respondi ao céu com um sorriso que era o reflexo de quem vislumbra uma estrela no futuro, olhando à direita das coisas, como se a minha visão fosse enquadrar minha própria imagem. Então percebi que aquilo tudo era estranho, que eu não poderia ver meu próprio rosto sem um espelho, e que um céu não poderia ter tantas luas como aquele.

Notando que ninguém nas ruas manifestava estranheza e tudo permanecia naquele tédio ruidoso de cosmopolita, recordei, em primeiro lugar, que eu não estava em casa: estava no aposento de um gênio. Por supuesto, eu estava em outra cidade, quiçá, em outro país.

Revolvi os olhos dentro das pálpebras e as esfreguei. Então as luas não me pareciam mais luas, mas pedras lisas em suas cores próprias, exibidas, como se cada uma quisesse produzir seu próprio luar em matizes únicos. Então três outras esferas orbitais se aproximaram violentamente da atmosfera, à minha esquerda. As luas se aproximaram, pareciam também querer observar o espetáculo, ou apenas tirar um sarro da minha patética admiração.

Desejei sair pela janela para ganhar aquele céu que parecia vivo, terrivelmente belo. Quis tê-lo em sua completude. Então as paredes do escritório se desataram do solo e foram tragadas pelo universo, que me poupou de sua sucção sabe-se lá por que. Eu tinha os pés cravados de horror sobre um chão que se elevou subitamente pelo vazio do espaço. O aposento inteiro parecia destacado da Terra, como se um observador curioso tivesse no comando de uma brincadeira onde eu era uma espécie de bibelô de casa de bonecas.

Eu me espremi pelo canto do aposento como um animal sem forças para encarar os meus desejos. Eram “meus desejos” que se materializavam? Senti que eram. Na dúvida, tive medo de continuar desejando. Vai que realiza, pensei – os meus desconhecidos recônditos alcançariam sua curiosidade com as próprias mãos. Eu não era eu, ou, eu sou mais forte que eu. E isso parecia cada vez mais uma certeza insuportável, desmedida. Eu fechava os olhos, mas sentia a câmara avançar pelo espaço, e essa loucura era a exata medida da minha vontade.

A garganta gelava, meus órgãos internos flutuavam, meus pés se tornaram dois garranchos inúteis. O que eu imaginasse, até no mais adormecido instinto, poderia se tornar realidade no próximo segundo. Meu corpo não sobreviveria aos meus desejos, então eu mesmo me engoliria ou me explodiria na atmosfera de um lugar hostil. Timidamente, entreabri as pálpebras e olhei de volta para o céu. Vivo. Eu e o céu. As três esferas inquisitivas continuavam por perto, registrando minhas ações ante os mistérios celestes. E as luas, ou planetas, ou qualquer coisa que fosse, perfilavam-se diante de mim, em escalada.

Como que familiar a elas, reconheci aquelas luas. Elas pareciam o sistema de planetas em que habito. Inusitadamente perfilados. Como dizem os esotéricos: “alinhados”. Eram os planetas que me cercavam, com suas exuberâncias coloridas. E onde estava o Sol? Eu não via o Sol, que seria o pai das cores que os planetas exibiam – com força cada vez mais intensa.

Antes que eu me voltasse para o Sol, então, Marte se elevou diante de mim, e por trás de Marte a Terra também se elevou e, por trás da Terra, Vênus, e, como era de se esperar, Saturno e seus anéis loucos se elevaram.

Mercúrio se aproximou da câmara como se encarasse com desdém a minha covardia. Seu gesto dizia que eu sou um animalzinho sem força pra exercer minha própria liberdade. As apostas subiram dizendo que eu não daria conta do recado. Súbito, um dos anéis de Saturno enviou uma pequena esfera brilhante que passou zunindo pela câmara em direção às três luas, que continuavam a julgar.

– Seriam os três reis magos?, perguntei a mim mesmo, em franco desespero. A quem mais eu perguntaria?

Então a pequena esfera passou por mim outra vez, zunindo. Fui em direção ao banheiro da câmara para tentar me esconder de seus ataques, ou apenas tentar me espremer num outro canto, como um menino acossado, rastejante, mas a fechadura estava trancada. Quando a minha mão trêmula desistiu da maçaneta, a pequena esfera se alojou na palma da minha mão e ali permaneceu por uma fração de segundo, para depois atravessar minha carne (como se eu ou aquela coisa fôssemos imateriais) e sumir dali em seu voo hábil.

Estranhamente senti, num hausto de vida, um gosto de habitualidade com as coisas do céu. Concluí que a plataforma suspensa na qual eu me encontrava é que era ilusória. Uma ilusão familiar. E que o resto, o que para mim era ilusão e mistério, isso é que era o verdadeiramente real. Assim, todas as coisas que fiz na Terra pareceram projeções pobres e doentes dos meus desejos no céu.

Os meus sentidos se aguçaram em êxtase e eu tinha certeza de que em pouco tempo eu estaria em compasso com aquela hiper-realidade, a ponto de controlar minha cosmogonia interior.

Antes que eu tivesse tempo de desejar o brilho de volta em minhas mãos, e me regozijasse com a certeza de que aquela pequena coisa era a verdadeira iluminação, minha mãe e o gênio mau abriram a porta e tudo voltou ao que era antes. As paredes estavam de volta aos seus lugares. A Terra parecia até mais verdadeira e aconchegante que de costume. As luzes emitidas pelas três luas transformaram-se em rígidos postes de concreto perfilados nas frisas de um estacionamento. Era uma casa ordinária, num quinhão de mercado, ou coisa assim. O mestre sentou-se e pediu que eu achasse assento também.

– E aí, deu pra aprender alguma coisa? – perguntou ele, acendendo um cigarro, com uma inflexão fria e indiferente ao meu estado de torpor.

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