Dias de paz na CV (título provisório)

Adaptado de “Assassinatos da Rua Morgue”, de E.A. Poe

A despeito das tradições psicológicas, as melhores façanhas mentais costumam ser objetos pouco suscetíveis a análises prévias. Nesse campo, só confirmamos uma hipótese depois dos efeitos se manifestarem. O número de fracassados com o QI maior que o do Einstein atesta que quantificar inteligência e engarrafar peido têm a mesma consistência prática. No mundo real, nunca ninguém crava nada. Mas sabemos que façanhas existem, claro, e elas simplesmente estão aí para nos desafiar. Quando esses fenômenos se manifestam no grau do incomum, a “análise científica” rende-se ao brega:  eis que entra em cena o Pedro Bial e joga todo seu repertório de obviedades sobre algum prodígio. Daí a coisa pode se confundir com um truque e perder seu apelo pra bunda da Sabrina Sato. Mas não vou aqui vitimizar o cara que calcula mais rápido que uma Facit ou o que decorou a marca da cueca que usou no último finde do verão de 98. Tenho consciência de que o portador de grandes habilidades mentais, mesmo ele, não está livre da vaidade. A propaganda e o encantamento público são fontes inesgotáveis de prazer. Do outro lado da linha há um marombado tirando foto do bíceps no espelho da academia e o Chico Buarque, que vive do carisma que conquistou a platéia lá nos anos 70. Mas fora (e acima) do show business, há o sujeito cujas melhores faculdades – constrangedoras demais para serem exibidas em público – são as de analisar as coisas ao seu redor com uma rapidez de raciocínio que beira o sobrenatural.

Esse tipo de gente encontra prazer até numa viagem de elevador. Qualquer coisa, por mais trivial, vira oportunidade de exercer  talentos. As poucas demonstrações que o decoro lhe permite exibir deixam o interlecutor de cabelo em pé, e por isso tanta gente o recrimina por ser “uma pessoa difícil”, “sincero demais”, “enxerido” ou “fofoqueiro”.

Pode-se dizer que o homem analítico obtém suas habilidades no estudo meticuloso do raciocínio lógico, o que é correto segundo a filosofia clássica; porém suas conclusões – apesar de serem a própria essência do método – obedecem a um estrito jogo da intuição.

– O que vocês estão fazendo, seus merdas? O maior pecado da cristandade é usar peças de xadrez para jogar damas.

– Não gostamos de xadrez; e o maior pecado que existe é não usar a vida para se divertir.

– Preferir damas a xadrez é sinal de pobreza intelectual, Duran.

– Você vai me perdoar, mas no xadrez não há nada de intelectual.

– Como é?

– Não se pensa de verdade para jogar xadrez, apenas calcula-se as chances. E isso pode virar um mero jogo de memória. Nas damas é preciso muito mais maturidade, uma vez que todas as peças têm poderes iguais.

– Isso só significa que tu não tens condições de elaborar estratégias diferentes para seis tipos de sujeitos diferentes.

– Graças a Deus nunca precisei disso. Mas, se precisar, juro que não vou pedir para que eles andem em “L” ou em linha reta, seria inútil, para não dizer idiota. – Dama! – gritou o João para mim, ao alcançar a última linha do meu território com um peão. Eu tentava me concentrar no jogo enquanto ele discutia com nosso “patrão”, o seu Sabá, que nos dava servicinhos extras do “escritório”. O seu Sabá era dos mais poderosos dos assessores políticos da cidade e tinha um “setor” de negócios escusos que despachava no tal escritório. A nossa condição de novato por ali não nos permitia aquele grau de rispidez nas conversas com ele, e talvez o mais experiente dos funcionários jamais tivesse respondido daquele jeito para o patrão. Essa ideia me fazia gelar (e perder a concentração) a cada réplica da conversa. Pra piorar, João seguia na sua linha inflexível: – Seu Sabá, as damas fazem um serviço muito melhor no que diz respeito ao reconhecimento dos outros. É preciso se lançar no espírito do oponente para aprender como seduzi-lo. A proficiência demanda capacidade de vencer uma guerra pessoal com os olhos; toda hesitação, toda impaciência, um sorrisinho irônico, um movimento irrefletido… tudo isso são variações de uma coisa só: um homem frente à possibilidade de se dar bem. Duas ou três mesas depois, você reconhece a reação do outro diante das fatalidades; na saúde, na doença, na miséria, no medo, etc etc. Fazendo simples analogias, as damas lhe permitem supor estratégias para encalacrar o adversário usando seus vícios e virtudes.

Na época em que trabalhamos pro Sabá, eu já conhecia o poder de análise do João – ou do “Duranz”, como ele ficou conhecido mais tarde. Hoje, nesse âmbito, as ciências psicológicas já nos trazem deduções precisas sobre essa característica de maluco… e ficou claro que esse tipo não pode ser confundido com o tipo puramente engenhoso. O tipo engenhoso é aquele cara que pode passar num vestibular dos Agulhas Negras em primeiro lugar, mas bancar o idiota em áreas fora das teorias matemáticas. Hoje é possível fazer uma analogia entre engenhosidade/análise e fantasia/imaginação de modo que a conclusão, meio óbvia, é a de que o homem analítico é necessariamente engenhoso, assim como o homem de imaginação é obrigatoriamente um fantasista inveterado. Prosseguindo: o homem de imaginação rica quase sempre é um analítico; enquanto o homem de engenhos é incapaz de especular suas fantasias para além delas mesmas, isto é, ele não tem acesso livre ao campo da imaginação.

Tomando todas essas considerações como premissas, ficará muito mais claro identificar o ponto-chave dos acontecimentos que se passaram no meu bairro naquela madrugada de 2007…

Como toda Ciudad Vieja que se preze, a Cidade Velha de Belém é um bairro perigoso, apaixonante e meio podre. As fachadas dos prédios – antiquíssimos, imemoriais – emprestam às ruas uma atmosfera meio lúgubre, de nobreza decaída. A natureza do lugar parece se confundir com a vida dos que o habitam. Todos os residentes que conheci por ali, invariavelmente, ou eram de linhagens nobres (e arruinadas), ou eram pobres diabos (estudantes, prostitutas, travestis, portugueses…) Enquanto eu me encontrava nesta segunda categoria de pessoas – era universitário -, meu colega João Luiz, o Duranz, atendia tanto à primeira quanto à segunda tipologia: era um universitário falido, além de ser descendente de portugueses, ter uma irmã puta, escapando ele mesmo do assédio das bichas da Riachuelo. Uma das coisas que pode me explicar a existência de um cara como o João é justamente isso: seu ego havia sido reduzido a uma tal grau de miséria que seu caráter sucumbiu à dor, e isso o fez desistir de enfrentar o mundo. Infelizmente, quando o sujeito desiste de encarar a vida como ela é, só existem dois caminhos possíveis: transformar toda a realidade em variações do seu bel-prazer; ou o suicídio. É claro: todas essas formas não passam de delírios do escapismo.

Como o João não se matou, fica clara qual foi a loucura que o dominou durante sua história. Mas a vida de um homem marcado pela derrota dificilmente deixa de ser miserável. O João tinha consciência disso e não se deixava abater pela falta ou fartura de condições materiais. O único luxo que ele desfrutou durante o tempo em que moramos juntos foi o acesso irrestrito aos livros; isso porque o Tomás do sebo não se importava em lhe fazer empréstimos sem esperar pelo pagamento.

Foi lá mesmo no sebo do Tomás (na saída da Óbidos com a Tamandaré) que eu conheci o João Duranz. Na verdade eu já o reconhecia da Universidade, mas a coincidência de estarmos naquele lugar fétido, procurando pelo mesmo volume (que não era acadêmico), fez nossos contatos se estreitarem a ponto de virarmos verdadeiros amigos.

– Tô procurando o Cão da Meia Noite, do Marcos Rey. – disse ele ao Tomás.

– Acho que o dono não vai deixar você passear com ele. – então o Tomás apontou para mim, que folheava o Cão, apoiando o cotovelo numa escada articulada.

O João me convenceu a fazer um empréstimo de dois dias sobre o livro, sendo que eu ficaria devendo somente a metade do preço ao Tomás e ele a outra – que nunca seria paga, naturalmente. Fechei o acordo. Os dois dias passaram e nós nos encontramos novamente. Combinamos de fazer o mesmo outras vezes, com outros volumes, de modo que o Tomás se fodia enquanto minha amizade com o João aumentava formidavelmente. Logo estávamos nos encontrando quase todos os dias. Eu gostava de ouvir seus pequenos escândalos, que ele contava com todo o ardor dos egoístas quando falam de si mesmos. Me diziam que eu não deveria confiar no meu novo amigo porque, além de cleptomaníaco, ele era um péssimo escritor – e todo prosador possui vícios insanáveis. Pensei em dissuadi-lo para que ele investisse em poesia, mas esqueci essa ideia pois eu não me sentia em condições de aconselhar um cara cuja vastidão de leituras e inventividade me pareciam sublimes. O João me ensinava, essa era a verdade. E eu senti que a amizade com um homem assim poderia me trazer vantagens inestimáveis. Então um dia eu lhe confiei esse sentimento mesquinho. E a resposta veio, na maior tranquilidade, em forma de convite:

– Então venha morar comigo, Ronaldo.

– Morar contigo?

– Tens fome, teus olhos não mentem. Tens que experimentar uma verdadeira vida de escritor, cara, e às vezes é preciso se refugiar. Não dá pra fazer literatura com esse barulho. A felicidade e a miséria nos espreitam a todo intante, em todos os lugares. – enquanto João falava uma jovem morena desfilava na calçada com um aparelho de mp3 em forma de rabeta, o objeto emitia um ruído de broca que talvez fosse um technobrega.

– Não sei como, mas eu consigo te compreender.

– É preciso não dar mole pras facilidades da vida nem pras seduções da morte. E pra isso, o meu refúgio é perfeito. Quem souber do modo como viveremos vai pensar que somos dois loucos, embora dois loucos mansos. Mas que se foda. Nenhum intrometido como esse Tomás aí vai saber de nada. Aperte a minha mão, Ronaldo, e não se preocupe mais: vamos manter nossa localização em sigilo. Existiremos só para nós dois, isto é, para a literatura. A bunda-molice a gente deixa pra fora. – eu estive maravilhado com a sinceridade daquelas palavras, eu queria mergulhar nelas e apoiei imediatamente a ideia de que o mundo se desdobrasse segundo suas ordens – Ah, tu ficas com a luz e o supermercado, deixa que eu me viro com o IPTU.

Um bom filho da puta era o João.

 

(continua…)