Fator Rússia

Estudar Rússia é uma questão de sobrevivência intelectual. Emprego a palavra “estudar” no sentido de tentar entender, que pode se estender a passar a vida tentando entender. Eu, por exemplo, pra elaborar a pequena frase que encabeça esse texto levei quase uma década.
Essa pequena frase é uma daquelas certezas que crescem com o cara, amadurecem, até que um dia, inopinadamente, vira verbo, como um grito de eureka na banheira, como uma ideia sofisticada durante um pileque, ou mesmo no meio de uma crise de hérnia passando o arquipélago do Bailique. Essa pequena frase é aquele tipo de coisa que caminhou lentamente da mera desconfiança pra clareza absoluta, sem escapar incólume pelas armadilhas do achismo.
Só consigo afirmá-la porque ela já se mostrou madura, afinal, já não era sem tempo: lá se vão nove anos desde que entrei em contato pela primeira vez com o mundo russo (com O Idiota). Desd’aí, sem fazer alarde, o número de coisas que foram chegando e não passavam pelo, digamos, “crivo-Rússia” foi ficando cada vez menor – e ultimamente beirou o zero.
Saindo dos giros clássicos, resolvi encarar um escritor pós-URSS: Vladímir Voinóvitch (Propaganda Monumental). O resultado desta recente experiência me atrevo a resumir: a similaridade do humor, da miséria e do pedantismo das personagens russas com o Brasil (em especial Belém) não é coincidência. As histórias russas são tão extraordinariamente vivas para nós – que vivemos tão longe – que lá pelas tantas soou estranho o fato de eu não conseguir passar uma cantada no mesmo idioma da Maria Kirilenko.
Mais que isso (bem mais que isso) foi esquisito perceber como uma coisa tão incorporada em TODOS os fenômenos modernos é encarada com tanta sordidez e estranheza, quando deveria estar tão próxima de nós como está a cultura americana, a realeza britânica, ou mesmo esses programas do neo-budismo, do esoterismo romântico, do africanismo, entre outros badulaques que o brasileiro sincretiza no seu dia-a-dia sem a menor cerimônia.
Esqueça: não vou começar a pregar algum tipo de filo-eslavismo. Até porque seria desnecessário: já vivemos num, ainda que poucos percebam. O triste é que vivemos o mais pobre, pretensioso e deplorável da experiência russa. E o estranho é viver dentro de tais e quais condições (artificiais) e passar batido por elas. Encaramos o nome de Vladimir Ilitch Ulianóv como se tratasse de um alienígena quando, na verdade, foi um sujeito que se transformou em um em pleno século XX, foi mumificado depois de morto, e costumava atender pelo vulgo de Lênin.
– E o que diabos isso tem a ver conosco?, como a múmia dos soviets interfere no preço da farinha?
A maioria das pessoas, inclusive as mais bem educadas, não acredita que sobre seu destino pesa a mão da história. À maioria parece que a humanidade alcançou um ótimo grau de maturidade e tudo será como deve ser hoje, e assim as coisas vão se acumulando sem levantar suspeitas. Se diante de nossos olhos acontece algum fato extraordinário, entendemos aquilo como mero resultado da coincidência de coisas ocasionais – “a ocasião faz o ladrão”. Tão logo o noticiário toma um novo rumo e a noite esfria, logo nos parece que tudo vai voltar a ser como era antes. Uns desejam que seja assim, outros temem que assim seja. Nesse novo Brasil das manifestações, vamos nos dividindo entre os saudosos do regime e os que temem os “anos de chumbo”. Ninguém parece compreender que o tempo não volta atrás.
Seria preciso um esforço acadêmico pra identificar influências soviéticas em coisas tão triviais como o litro da farinha. Obviamente o preço das coisas tem alguma relação com a administração atual – sobretudo se a farinha for produzida pelas FARCs, se é que você me entende. Entretanto, prefiro investir minhas energias concentrando-me no óbvio, que geralmente é onde estão as melhores surpresas. Então vamos a ele, ao óbvio:
No post anterior publiquei a carta em que uma cineasta revela os motivos pelos quais resolveu abandonar o coletivo Fora do Eixo. Lá pelas tantas, ela se revela surpreendida pelo fato do coletivo não lhe remunerar pelas participações em palestras, convenções etc, e ainda querer se apropriar de sua obra. Será que a nossa cineasta não desconfiava nada de quem ela tava se metendo?
                … ora, o pessoal do Fora do Eixo é o mesmo que apoia esses movimentos de royalties free, pró-pirataria, etc etc – como discutir direitos com quem caga no conceito de propriedade privada? É uma atitude imprópria ao tipo de ambiente em que eles se habituaram, de modo que “de onde vem a grana?” torna-se uma pergunta indiscreta, além de boba e carente de sentido.
O movimento Fora do Eixo reza na cartilha do marxismo cultural, ou por outra: remunerações, castas hierárquicas, direcionamentos, tudo obedece (com o devido rearranjo local) à velha prática das instituições de cepa comunista. Vejamos o exemplo no livro do Voinóvitch:
“O movimento Por Você e por Aquele Parceiro nasceu na época em que o povo, cansado da construção geral do comunismo, ansiava por estímulos materiais. Deram-lhe, então, em vez de dinheiro e uma vida melhor, novos e radiosos ideais; lançaram-lhe ideias patrióticas. Armado ideologicamente, o povo atendeu ao apelo do Partido e do Komsomol, ou, em alguns casos, à determinação do juiz, e derrubou a taiga, abriu canais, desbravou terras virgens, estendeu a ferrovia Baikal-Amur. Enquanto isso, vivia em tendas e barracas e comia porcarias impensáveis. E para que o povo gastasse as suas forças, calorias e saúde com maior entusiasmo, o Partido o premiava com diversas condecorações, medalhas, insígnias, diplomas, flâmulas e bandeiras da emulação socialista, além de criar pseudomovimentos, simulando que o próprio povo os teria concebido. Havia muitos deles.”
 – Alô, dona Beatriz Seigner!, algo lhe soa familiar?
                O Fora do Eixo é um desses “muitos deles”, a milhares de quilômetros, há décadas do “Por Você e por Aquele Parceiro”. Mas aqui e agora a grana e a qualidade de vida, como vemos na carta da Beatriz, continua sendo transformada num valor inferior às condecorações, à mera possibilidade de galgar postos de liderança ou de se aproximar de um líder. Nesse esquema, o peido do Pablo Capilé pode virar um mantra na boca de seus seguidores. Lá dentro ninguém duvida de ninguém, não se vê discordâncias, tudo é unânime e inquestionável. Agora, será que tudo num livro escrito sobre a Rússia dos anos 60 é mera coincidência com a movimentação interna do Fora do Eixo?, será que os nossos movimentos civis têm que ser assim, com esse clima de neo-socialismo e camaradagem insegura?
                De qualquer maneira, nunca vi arte, partidarismo e administração pública se misturarem e daí sair coisa que preste. Esse tipo de arte fede. O artista fica condicionado a puxar o saco de um líder – que metonimicamente é chamado de “Povo”. Uma hora ninguém consegue mais suportar a nhaca dessas rodinhas de artistas e então esses viados começam a acumular sucessivos fracassos na carreira (vide o caso Ziraldo, que sobrevive de indenizações dos tempos da ditadura e conchavos afins).
                A carta da Beatriz Seigner é um daqueles documentos pra imprimir e ser analisado com muita paciência. Mas vamos combinar: sobrou ingenuidade. A própria autora parece não se dar conta de estar num setor onde esse tipo de articulação canhestra é moeda corrente. O dinheiro que você, dona Beatriz, se desespera em não encontrar só aparece depois de um longo trajeto de dedicação ao “Partido”. Sendo franco, não acredito que você desconheça isso. O próprio tema do seu filme e vários deslizes na sua carta levam a crer que você sabe muito bem onde se meteu. Minha tese é que salgaram a sua bebida no Fora do Eixo e você não gostou. E a coisa vai morrer numa discussão interna.
                Quero dizer: pela hierarquia tácita (talvez escrita em algum lugar) incluem-se na folha de pagamento da administração pública os funcionários-padrão e os integrantes da classe artística – cineastas, ex-tropicalistas, atores – bem relacionados com as autoridades. Inacreditável alguém do ramo nunca ter desconfiado disso. Yes, nós temos bananas e uma ditadura. A ditadura perfeita tem, como dizia Aldous Huxley, “a mesma aparência de uma democracia. Uma prisão sem muros onde os presos não sonharão sequer com uma fuga. Um sistema de escravatura que, graças ao consumo e à diversão, os escravos terão amor pela servidão”.
                Por fim, outro exemplo óbvio de influência soviética em nosso Brasil Varonil é a moda vândala que pegou o país de jeito. Tenho dúvidas quanto à fonte, mas andam dizendo que há um campo de treinamento no Mato Grosso onde essa gente aprende a fabricar coquetéis molotovs, escudos de madeirite, etc. Eles supostamente estão sendo treinados por guerrilheiros experientes e líderes do MST. Sendo que guerrilheiros experientes, como já é de conhecimento público, foram treinados em Cuba nos anos 70. E o castrismo, como também é de conhecimento público, foi sustentado pelo politburo com dinheiro da KGB – cujos membros hoje são os políticos e oligarcas russos que compram meio mundo num final de semana. (Aliás, Molotov era o pseudônimo de um antigo diplomata soviético)
De qualquer modo fica o alerta: especula-se que os próximos alvos dos idiotas incendiários estão previstos para o desfile do 7 de Setembro e o ROCK IN RIO..
Obs: veja os conceitos gramscianos de “intelectual orgânico”, “ocupação” e “hegemonia cultural” e entenda o que o Pablo Capilé quer dizer com DUTOS dentro do Fora do Eixo.